Sites Grátis no Comunidades.net

SAÚDE COLETIVA: Coletânea. Número 1. Vol.1. Outubro/2007. ISSN 1982-1441



Total de visitas: 44484
7. Análise da Política de Saúde Infantil no Cariri

 RESUMO

Os agravos à saúde têm sido estudados sob vários enfoques, sendo cada vez maior a preocupação com os fatores de risco. Novas pesquisas demonstram a associação entre a morbi-mortalidade, saneamento básico, estado nutricional, educação da mãe, situação sócio-econômica, oferta de serviços de saúde, dentre outros fatores. Conhecer esses fatores de risco a que estas crianças estão expostas e os que desencadeam as dificuldades no seu desenvolvimento é de extrema importância para uma atuação preventiva. O objetivo do presente estudo foi analisar a efetividade das políticas de saúde infantil, através da análise do Programa Saúde da Família da zona rural do distrito de Cariutaba, em Farias Brito, de Janeiro a Abril de 2003. Para isso propôs-se a um estudo exploratório de campo, neste distrito, com um total de 35 crianças. Os resultados demonstraram que a maior parte da população vive em condições sócio-econômicas precárias, 77,1% das famílias que participaram do estudo sobrevivem com renda inferior a um salário mínimo e em condições higiênicas desfavoráveis. Além disso, foi constatado que 22,8% dos sujeitos se encontravam em risco nutricional. O estudo demonstrou a necessidade de um programa educativo para a comunidade, sobre higiene, educação e saúde, bem como sobre a importância do aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida.

Palavras-Chave: Políticas de saúde, nutrição, crescimento e desenvolvimento




 INTRODUÇÃO

As dificuldades e fatores relacionados a morbimortalidade têm sido estudados, enfocando-se cada vez mais os fatores de risco. Novas abordagens na epidemiologia trouxeram entendimentos dos problemas de saúde infantil, demonstrando a associação entre a morbi-mortalidade, saneamento básico, estado nutricional, educação da mãe, situação sócio-econômica, oferta de serviços de saúde, dentre outros fatores correlacionados entre si.

Conhecer esses fatores de risco a que estas crianças estão expostas e os que desencadearam as dificuldades no seu crescimento e desenvolvimento é de extrema importância para a atuação dos profissionais de saúde.

O crescimento é um processo biológico, de multiplicação e aumento do tamanho celular, expresso pelo aumento do tamanho corporal. Todo indivíduo nasce com um potencial genético de crescimento, que poderá ou não ser atingido, dependendo das condições de vida a que esteja submetido desde a concepção até a idade adulta.

Portanto, pode-se dizer que o crescimento sofre influências de fatores intrínsecos (genéticos, metabólicos e malformações, muitas vezes correlacionados, ou seja, podem ser geneticamente determinados) e de fatores extrínsecos, dentre os quais destaca-se a alimentação, a saúde, a higiene, a habitação e os cuidados gerais com a criança (WHO, 1995).

O desenvolvimento é a característica primordial da criança que cresce, se modifica e se afirma como indivíduo. Ao atender suas necessidades essenciais, dia a dia, se garante o seu crescimento e desenvolvimento harmonioso. Não pode haver crescimento e desenvolvimento satisfatório se a saúde da criança está afetada (STEFANE, 2000).

No Programa Saúde da Família o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento é uma estratégia usada para a estruturação da atenção a saúde da criança, visando promover uma qualidade de vida essencial para um bom desempenho no futuro. É claro que os fatores externos influenciam essa conduta e a boa vontade da mãe, bem como a sua condição socioeconômica, são de extrema importância na execução dessa tarefa.

A partir da consulta de acompanhamento do crescimento e desenvolvimento é também possível o estabelecimento de condutas curativas dirigidas aos processos patológicos presentes e o estabelecimento de condutas preventivas, adequadas a cada idade, tais como: vacinação, alimentação, estimulação e cuidados gerais com as crianças, em um processo contínuo de educação para a saúde (BRASIL, 2002).

Segundo a UNICEF (2002), A existência de crianças saudáveis e instruídas não é meramente uma conseqüência do desenvolvimento econômico, constitui um motor decisivo para impulsionar esse desenvolvimento. Se quisermos investir no desenvolvimento, isso significa investir, em primeiro lugar e antes de tudo, nas crianças.

A falta de apoio e investimento do governo para proporcionar um desenvolvimento adequado para as crianças gera conseqüências irreparáveis para a ascensão do país. Medidas práticas podem promover a saúde e educação das crianças e basear-se em estratégias fundamentais para reduzir a pobreza.

A informação macroeconômica confirma que os países onde as condições da saúde e de educação são piores têm muito mais dificuldade em alcançar um desenvolvimento sustentado, que os países onde as condições nesses planos são melhores (UNICEF, 2002).

Crianças em situação de pobreza podem apresentar algumas características sadias, apesar das dificuldades impostas pelo ambiente. Para manterem-se estáveis desenvolvem estratégias para adequar-se ao meio em que vivem. A realidade é que a situação de vida dessas crianças denunciam um quadro de exclusão social.

Há no mundo, dois milhões e cem mil crianças, o que representa 36% da população total. Todos os anos nascem cerca de cento e trinta e dois milhões de crianças. A nível mundial, uma cada de quatro crianças vive em situação de pobreza, no seio de uma família com um rendimento inferior a um dólar por dia. Uma de cada doze crianças morre antes de completar os cincos anos, sobretudo devido a causas evitáveis (UNICEF, 2002).

Na América Latina, um número importante de menores de cinco anos está em condições sanitárias, culturais e sociais absolutamente deficientes e por isso não alcançaram o seu desenvolvimento integral (pleno alcance de suas potencializadas físicas, psicológicas e espirituais). As suas oportunidades de desenvolver-se são poucas porque vivem em áreas demasiado povoadas, com pouco espaço para brincar, ficam sós e não têm suficiente variedade de atividades que estimulem seus sentidos, vocabulário, aptidão espacial e outras percepções (STEFANE, 2000).

A falta de crescimento e desenvolvimento saudável na criança implica em um problema de grande relevância na saúde pública dos países em desenvolvimento. As precárias condições de vida a que se expõem a maioria das crianças brasileiras, ambientes pouco construtivos e pouco estimulantes, constituem um problema para o seu pleno desenvolvimento.

É evidente que o estado nutricional deficiente da criança, acarreta inúmeros problemas no seu crescimento e desenvolvimento. O retardo nutricional pode ser acarretado durante a vida intra-uterina do feto e persistir nos primeiros anos de vida, causando a desnutrição e retardando o seu desenvolvimento cognitivo. Por isso torna-se importante realizar um estudo que identifique as causas da má nutrição, a falta de aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis messes de vida e as condições sócio-econômicas das crianças que vivem na zona rural.

O interesse da realização do trabalho nessa localidade se deu devido às condições precárias em que se encontra a população neste município.



- Principais influências no processo de crescimento infantil

Poucas funções biológicas dependem tanto do potencial genético como o crescimento. No entanto, a qualquer momento, desde a concepção e especialmente nas crianças pequenas, fatores ambientais podem perturbar o ritmo e a qualidade deste processo. O alcance dessa meta biológica depende, na verdade, das condições do ambiente onde se dá o crescimento da criança sendo sua influência marcante.

Existem os fatores endógenos que vão ao encontro dos fatores do meio ambiente. Assim, até os três anos de idade a ação do meio é preponderante, mas depois dessa idade os fatores genéticos influenciam progressivamente e com crescente nitidez. Isto aparece principalmente nos seguintes fatores: fator racial, influenciando o tamanho e a velocidade do crescimento, fator familiar, que pode falsear o diagnóstico. Perturbações de crescimento podem passar despercebidas, numa família de gente de pequena estatura e fator maturação óssea varia em função do sexo. A idade óssea do rapaz se realiza mais tarde que a menina (STEFANE, 2000).

A influência do meio ambiente ocorre desde a vida intra-uterina, quando o crescimento é limitado a partir de um certo momento pelo espaço da cavidade intra-uterina, até a idade adulta. Habicht (1974) demonstrou que crianças menores de 5 anos, de diversas nacionalidades, crescem num ritmo semelhante desde que submetidas a boas condições de vida. O mesmo não acontece com crianças de mesma nacionalidade, porém sob condições socioeconômicas diferentes (as de nível alto crescem de modo similar às crianças de países em desenvolvimento, enquanto as de baixo nível socioeconômico crescem em ritmo mais lento).

Cada vez mais, existem evidências sobre a uniformidade genética da espécie humana e o peso crescente de outros condicionantes, favorecendo ou impedindo a expressão do potencial genético.
É importante salientar que quanto mais jovem a criança, mais dependente e vulnerável é em relação ao ambiente. Isso faz com que condições favoráveis ao crescimento sejam função, não apenas dos recursos materiais e institucionais com que a criança pode contar (alimentação, moradia, saneamento, serviços de saúde, creches pré-escolares), mas também dos cuidados gerais, como tempo, a atenção e afeto definem a qualidade do cuidado infantil e, quando maximizados, permitem a otimização dos recursos materiais e institucionais de que a criança dispõe.

A alimentação também desenvolve um papel importante no crescimento infantil.
A alimentação quantitativa e qualitativa da criança deve satisfazer as necessidades específicas ligadas ao crescimento. Nos períodos de crescimento rápido a falta de proteínas animais (sobretudo o leite) e a insuficiência de calorias são as carências mais prejudiciais ao organismo. Elas geram uma estagnação precoce da curva de peso. Mas a altura só é perturbada se a carência persistir. O equilíbrio hormonal, as funções enzimáticas também são perturbadas. Em caso de má nutrição, a recuperação é tanto mais difícil quanto mais jovem for a criança, sobretudo no primeiro ano de vida (STEFANE, 2000).

As condições de vida familiar e social nem sempre deixam as crianças seguirem seu próprio ritmo. Mas a mãe ou a pessoa encarregada de cuidar da criança, dispõe de um certo número de informações para organizar o ritmo de vida de acordo com as necessidades de cada idade da criança.

A higiene corporal também influencia no desenvolvimento da criança. Os cuidados higiênicos que se tem com o bebê e a criança, no período de semidependencia por que passam, são de uma importância capital. Com efeito, a higiene do corpo é fonte de bem–estar e desempenha um papel importante na saúde graças à diminuição dos riscos de erupções cutâneas, feridas e suas conseqüências, ou protegem a criança contra as infecções de origem externa, além de manter sua boa saúde (STEFANE, 2000).

Assim, a higiene é indispensável à saúde física e mental da criança e influi na construção do de sua personalidade, seu desenvolvimento e na qualidade de sua inserção social.
A situação socioeconômica da família é outro fator que repercute no desenvolvimento somático e intelectual da criança. Embora os fatores socioeconômicos e culturais sejam numerosos, parece que alguns influenciam mais decisivamente: os alojamentos superlotados e insalubres que impedem a qualidade dos cuidados e facilitam as infecções; a transplantação do meio rural ao urbano em função da deteriorização da qualidade de vida e o nível de instrução dos pais cuja influência é tão decisiva na qualidade do desenvolvimento quanto à situação econômica (STEFANE, 2000).

As condições físico-afetivas atuam diretamente no equilíbrio emocional da criança, que dependendo da situação em que a criança é exposta o seu desenvolvimento pode ser prejudicado e suas repercussões podem acarretar prejuízos no futuro.

O equilíbrio físico-afetivo da criança repercute diretamente sobre o seu apetite. A criança busca continuamente a afeição e a comunicação com os pais. A situação de carência afetiva acarreta angústia, tristeza, falta de apetite (STEFANE, 2000).

Como fator intrínseco complexo, a atividade dos
hormônios desempenham um papel importante no crescimento da estatura, no amadurecimento dos ossos. A observação das patologias provocadas na criança pelo excesso ou carência de certos hormônios e a experiências de animais provam a ação determinante dos hormônios e seus efeitos complementares no organismo humano (STEFANE, 2000).



- Principais Características do Desenvolvimento Infantil

Processo dinâmico de organização sucessiva de funções biológicas, psicológicas e sociais em completa interação (FIGUEIRA et al; 2001).

O desenvolvimento depende da maturação-mielinização do sistema nervoso. A seqüência de desenvolvimento é igual para todas as crianças, mas a velocidade varia de criança para criança (CEARÁ, 2002).

O desenvolvimento é um fenômeno contínuo: cada etapa prepara a seguinte, embora os limites que as separam sejam vagos. Algumas etapas são mais importantes que outras, e abrem perspectivas totalmente novas, como é o caso do caminhar autônomo. A linguagem é adquirida lentamente desde os primeiros balbucios que só tem significação para os familiares, até a frase mais elaborada da criança de quatro anos. É também um processo global: a criança cresce, encorpa e se desenvolve no plano intelectual, social e afetivo. Esses desenvolvimentos estão estreitamente ligados uns aos outros, recebendo influências comuns (STEFANE, 2000).

No desenvolvimento neuropsicomotor o processo de avaliação é baseado na observação da criança, executada em conjunto com a avaliação do crescimento, de forma sistemática, levando-se em consideração dados da anamnese (pré-natal, natal, neonatal, doenças prévias, antecedentes familiares, ambientais e sociais, desenvolvimento em diferentes idades) e do exame físico. Deve-se observar as atitudes e atividades da criança de forma espontânea e provocada. Assim como os gráficos de crescimento, as tabelas de desenvolvimento são um guia, sinalizando para o fato de que, se há um retardo no desenvolvimento, deve-se posteriormente, realizar uma avaliação mais detalhada, com tabelas mais complexas e equipe de profissionais multidisciplinar, no sentido de se investigar a causa e disponibilizar estimulação oportuna e adequada (FIGUEIRA et al, 2001).

A teoria de Piaget explica como se processa a habilidade de compreensão da realidade, através da incorporação e do uso de conhecimentos adquiridos nas experiências. Segundo esse autor, o lactente está no estágio sensório-motor, progredindo de comportamentos reflexos para atos repetitivos simples e, destes, para atividades imitativas. O recém-nascido tem um comportamento reflexo e pautado na satisfação imediata das suas necessidades. Durante o primeiro trimestre, ele se torna capaz de diferenciar-se dos objetos e pessoas a sua volta. A partir da repetição de fatos em sua vida, começa a identificar relações entre eles, tais como as de ordem seqüencial e de casualidade. Esta percepção permite que a chegada da mãe o tranqüilize, uma vez que ele reconhece neste fato um antecessor no atendimento de sua necessidade. No segundo semestre, as principais aquisições são a permanência do objeto e sua representação mental. A noção de permanência do objeto relaciona-se ao reconhecimento da existência de algo, mesmo que fora do campo sensorial. É de fundamental importância na interação mãe-filho, na medida em que permite a criança saber que a mãe ausente continua existindo. Associando suas habilidades motoras a descoberta da permanência do objeto, a criança parte em busca do mesmo, transpondo e removendo obstáculo em seu caminho.

Esta tentativa de solucionar problemas é o rudimento do raciocínio lógico. Pouco a pouco, a criança vai associando símbolos aos objetos e às suas próprias experiências, e vai sendo reconstruído à medida que vivencia novas situações (SIGAUD et al, 1996).

O desenvolvimento psicossocial é o processo de humanização que inter-relaciona aspectos biológicos, psíquicos, cognitivos, ambientais, socioeconômicos e culturais, mediante o qual a criança vai adquirindo maior capacidade para mover-se, coordenar, sentir, pensar e interagir com os outros e o meio que as rodeia; em síntese, é o que lhe permitirá incorporar-se, de forma ativa e transformadora, à sociedade em que vive (COMISSION INTERSECTORIAL PARA LA PROMOCIÓN DEL DESARROLLO PSICOSOCIAL DE LA INFANCIA, 1996).

Para serem válidas, as generalizações sobre o desenvolvimento infantil não podem estar baseadas apenas na avaliação das habilidades pertencentes a um determinado sistema: motor, perceptivo, linguagem, etc. Esses sistemas traduzem determinadas funções que se apoiam em um processo de maturação neurológica, aperfeiçoam-se, desenvolvem-se, sofrem influências ambientais e se organizam em um núcleo constituído pelo o psiquismo. O atraso de uma dessas habilidades por si só não significa necessariamente um problema patológico já que entendemos que cada ser humano se desenvolve a partir de suas possibilidades e do meio em que está inserido. A criança deverá ser sempre vista como um todo e em relação com seu ambiente, pais e família.

Os objetivos do presente estudo foram: analisar a efetividade da política municipal de saúde infantil, através do crescimento e desenvolvimento das crianças de 0 a 1 ano, atendidas em um Programa Saúde da Família da zona rural do distrito de Cariutaba do município de Farias Brito, no período de Janeiro a Abril de 2003; investigar a situação sócio - econômica das famílias das crianças; discutir aspectos sociais implicados no crescimento e desenvolvimento das crianças e identificar a ocorrência de desmame precoce e falta de aleitamento materno como fatores de risco nutricional que possam interferir no crescimento e desenvolvimento das crianças.

O estudo foi realizado nos moldes de uma pesquisa de campo exploratória, no distrito de Cariutaba, zona rural situado a 19Km do município de Farias Brito, estado do Ceará. O distrito é composto por uma vila com¬¬¬ quatrocentos e quarenta e duas famílias e sítios acoplados ao distrito com cento e sessenta e seis famílias (SIAB, 2003). É de difícil o acesso ao serviço de saúde devido às barreiras geográficas que dividem os sítios do Distrito.

A população alvo constou de todas as crianças de 0 a 1 ano de idade, atendidas pelo Programa Saúde da Família da citada localidade, num total de 35. A seleção da faixa etária de 0 a 1 ano, deveu-se ao fato de entendermos que, nesta faixa de idade, as crianças são totalmente dependentes dos adultos a sua volta para sobreviverem com saúde. É também uma idade em que as crianças estão mais sujeitas a infecções e doenças respiratórias, por isso o Programa Saúde da Família possui um cuidado intensivo com esta população.

Os dados foram obtidos através das informações constantes nos prontuários das crianças e de entrevistas com as mães a partir de formulário desenvolvido para o propósito da pesquisa, sendo que, o roteiro de perguntas foi preenchido pelo pesquisador, no momento da coleta de dados. Tratou-se de um instrumento adequado ao caso, pois que dentre os informantes houve pessoas não alfabetizadas.




 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Neste estudo observou-se que 77,1% das famílias sobrevivem com renda inferior a um salário mínimo. O fator econômico é um poderoso indicador de negligência aos cuidados de saúde, em geral. Também foi identificado que 85,7% dos pais estão no mercado de trabalho informal e 65,8% das mães exercem atividades domésticas no próprio lar, não possuindo remuneração adicional. Essa situação é agravada pelo fato de 31,5% dos pais serem analfabetos e 65,8% das mães não terem concluído o ensino fundamental. A escolaridade tem sido considerada um fator importante no crescimento e desenvolvimento das crianças, através da transmissão de informações adequadas sobre saúde e alimentação.
Segundo Nóbrega et al. (1991), a mãe adolescente, assim como aquela com menor escolaridade, tem menor probabilidade de iniciar e manter a amamentação.

Dessa forma, é possível que a escolarização dos pais seja fator importante no crescimento e desenvolvimento das crianças e na transmissão de informações e disseminação do hábito alimentar para as crianças, que geralmente, os tomam como exemplo.

A idade e a escolaridade materna, assim como a situação conjugal estão associadas com diversas condições e constituem variáveis de risco para a saúde e nutrição da criança (CAETANO, 1992; SCHMITZ, 1999).

Segundo UNICEF (1990), o desafio mais importante dos anos 90 é a necessidade da retomada do perfil econômico e do desenvolvimento social nos países em desenvolvimento, e a solução conjunta dos perversos estragos da miséria e da fome, que continuam a afligir um número incontável de pessoas em todo o mundo. Como vulnerável segmento da sociedade humana, as crianças representam um interesse particular no crescimento econômico sustentado e na diminuição da pobreza, sem os quais não é possível assegurar-lhes bem-estar.

Investigou-se adicionalmente que 71,5% das famílias residem com quatro a treze pessoas em seus domicílios, o que pode significar o comprometimento da higiene, alimentação e dos cuidados no acompanhamento das crianças.

Outro aspecto observado pelo estudo diz respeito ao peso ao nascer das crianças, já que segundo Monteiro et al. (2000b); Post et al. (1996), a maior prevalência de déficit ponderal observada nas crianças com baixo peso ao nascer, reforça a importância deste fator sobre o estado de saúde e as condições de sobrevivência da população infantil.

Segundo Martins et al. (2001), há uma certa tendência de mulheres de baixo nível socioeconômico engravidarem mais, terem menos acesso ao pré-natal e a serviços de apoio, apresentarem maior probabilidade de bebês de baixo peso e/ou prematuros, menos matrimônio regularizados e, ao longo do tempo, tendem a acumular fatores de risco. Os aspectos socioeconômicos interferem no desenvolvimento da criança, assim como conseqüência da pobreza estão relacionados com a estrutura familiar e social (MARTURANO, 1997).

A tabela 10 mostra que 40% das crianças em estudo nasceram entre 3.000 e 3.500 gramas e 8,57% nasceram com peso abaixo de 2.500 gramas.

- Resultados de acordo com o peso ao nascer das crianças estudadas. Farias Brito, 2003.
PESO AO NASCER -> n
Abaixo de 2.5000gr. -> 03 (8,57%)
Entre 2.5000 e 3.0000gr.-> 12 (34,28%)
Entre 3.000 e 3.5000gr. ->14 (40%)
Acima de 3.5000gr.-> 06 (17,14%)
Total - >35 (100%)


A imaturidade dos órgãos e sistemas das crianças prematuras e de baixo peso ao nascer fazem com que elas possam apresentar seqüelas e comprometimentos. Distúrbio de condutas, problemas de visão e audição e relacionada ao desenvolvimento intelectual e neurológico são os principais problemas futuros que a criança pode vir a apresentar (MARCONDES, 1992; LEONE & TRONCHIN, 1996). A caracterização das crianças prematuras e baixo peso ao nascer diante de todos os problemas fisiológicos, é bastante complexa, recebendo elas a denominação de crianças de risco, com comprometimentos nos processos de crescimento e desenvolvimento a longo prazo (BARBOSA et al. 1993).

Segundo Figueira et al. (2001), os agravos ocorridos no período intra-uterino podem trazer conseqüências importantes para a saúde da criança. Portanto, uma boa história dos acontecimentos ocorridos na gestação é fundamental, especialmente em menores de 1 ano de idade. O interrogatório deve incluir informações breves sobre hábitos alimentares durante a gravidez, pois desnutrição materna ou deficiências nutricionais específicas podem aumentar o risco de desnutrição intra-uterina e/ou doenças congênitas.

Outros aspectos observados foram que 88,7% das mães entrevistadas realizaram pelo menos seis consultas de pré-natal durante sua gestação, 34,28% das crianças estudadas nasceram com peso variando entre 2.500 a 3.000 gramas e 77,2% das crianças analisadas encontravam-se na faixa de normalidade nutricional (97P10). Estes dados são reveladores da importância do acompanhamento do pré-natal dessa crianças, que mesmo sob condições adversas, mantiveram-se na faixa adequada de crescimento ao nascer.

Após o nascimento segue-se uma série de riscos para o crescimento e desenvolvimento das crianças, observe: apenas 17,1% das crianças foram amamentadas exclusivamente até o sexto mês de vida; 68,6% dos domicílios não possuíam água encanada; cerca de 42,85% dos domicílios não possuíam banheiro; 62,85% da deposição de excreta se dava a céu aberto, sem destino adequado e apenas 34,3% disponibilizava de coleta pública de lixo; 40% das famílias não utilizavam nenhum tipo de tratamento na água, apenas 11,4% utilizavam a fervura e 54,3% das famílias destinam o lixo a céu aberto.

O acompanhamento pré-natal, apesar de ser imprescindível como fator preventivo ao nascimento saudável, não é garantia de um crescimento e desenvolvimento adequado. A carência de informações básicas sobre educação, higiene e saúde, pode ser fatais para a criança de baixa renda.

O desmame precoce tem importância política significativa, na medida em que estabelece uma relação direta com a morbi-mortalidade infantil. Estima-se que a promoção da lactância materna poderia salvar um milhão de vidas, nos países em desenvolvimento (MONTRONE & ARANTES, 2000).
Segundo estudo de Barros & Victora (1990), durante a década de 80 apenas 6% das crianças brasileiras eram amamentadas até os dois meses de idade, sendo que 90% delas iniciaram a amamentação. Já em 1996, segundo a Pesquisa Nacional sobre Demografia e saúde (BEMFAM, 1997), cerca de 40% das crianças foram amamentadas até os quatro meses de idade.

Diante dos resultados obtidos, fica evidente que a maior parte da população vive em circunstâncias particularmente difíceis. As condições socioeconômicas que se encontram as famílias estudadas não permitem desenvolver ações de promoção à saúde da criança, uma vez que essas não têm qualidade de vida e vivem em um seio de uma família rodeada de pobreza e dificuldades. A falta de escolaridade dos pais contribui consideravelmente na educação da criança, juntamente com os seus hábitos de vida.

Por isso há necessidade urgente de implantar um programa educativo através do qual as mães e pais das crianças pesquisadas possam ter acesso a informações básicas sobre higiene, educação e saúde, bem como a importância do aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida para um crescimento e desenvolvimento adequado da criança, como também esclarecer sobre os fatores de risco que atrapalham e influenciam o crescimento e desenvolvimento infantil.



- Situação nutricional do grupo investigado.

– Tempo de amamentação exclusiva. Farias Brito-CE, 2003.

TEMPO EM AMAMENTAÇÃO EXCLUSIVA -> n

Nunca amamentou 03 (8,6%)
Até 1 mês -> 11 (31,4%)
1 –– 3 meses -> 10 (28,6%)
4 –– 6 meses -> 11 (31,4%)
TOTAL -> 35 (100,0%)

Com relação aos resultados da tabela, podemos observar que 8,6% das mães nunca amamentaram, e que em média, as mães amamentaram por dois meses e meio. Apenas seis mães (17,1%) relataram terem amamentado seus filhos, exclusivamente, por seis meses.


- Informações referentes ao meio ambiente a que a criança está submetido, no seu domicílio.

Nesta etapa da nossa pesquisa, objetivamos analisar, no contexto de vida social dos sujeitos, quais os fatores ambientais que poderiam influenciar seu crescimento e desenvolvimento. Para atingirmos tal propósito, investigamos primeiramente, se o domicílio possui água encanada. O resultado está demonstrado na tabela a seguir.

- Domicílios com água encanada. Farias Brito-CE, 2003.

DOMICÍLIOS COM ÁGUA ENCANADA

Sim -> 11 (31,4%)
Não -> 24 (68,6%)
Total -> 35 (100,0%)

Observou-se que 68,6% dos domicílios não possuem água encanada.

Saneamento básico é definido pela OMS como o controle de todos os fatores do meio físico do homem que exercem ou podem exercer efeito deletério sobre o seu bem-estar físico, social e mental. Estima-se que 80% de todas as doenças do mundo são causadas por saneamento inadequado, poluição de água ou água sem avaliação, o tratamento domiciliar é de grande valia para tornar potável a água consumida, podendo diminuir o risco de infecção (LAMPERT et al., 1994).

42,85% das residências das crianças entrevistadas não possuíam banheiro e 62,85% dos domicílios não haviam deposição de excreta, sendo depositados a céu aberto sem nenhum destino adequado.

A má deposição dos dejetos pode provocar o contato do homem com os mesmos, ocasionando a transmissão de doenças. O contato do homem com os dejetos será evitado se forem adotadas soluções sanitariamente corretas para o seu destino. Assim, deve ser evitado o lançamento no solo, em valas, diretamente na água ou em fossas malconstruídas, que causem a contaminação do lençol freático (fossas negras) (ROUQUAYROL, 1999).

A partir da constatação acima, tornou-se necessário investigar também, o tipo de tratamento de água que existe no domicílio. Os resultados estão demonstrados na tabela seguinte.


-Tipo de tratamento da água no domicílio. Farias Brito-CE, 2003.

TRATAMENTO DA ÁGUA

Filtro -> 11 (31,5%)
Ferve água -> 04 (11,4%)
Outro -> 06 (17,1%)
Não utiliza nenhum tipo de
tratamento para a água -> 14 (40,0%)
TOTAL ->35 (100,0%)


De acordo com o estudo 14, 31,5% das famílias utilizam o método da filtração para tratamento da água, e 11,4% fervem-na, antes de utiliza-la para consumo, 17,1% utilizam outro tipo de tratamento e 40% não trata a água utilizada para consumo.

Os dados denotam a situação emergencial, de saúde, por que passam estas famílias, tendo em vista ser a água um dos grandes transmissores de doenças parasitárias.

Segundo Bartlett et al. (1992), a higiene inadequada pode aumentar a exposição da criança a múltiplos patógenos entéricos. A importância da água utilizada, no preparo dos alimentos, para beber, para banhos e lavagem de utensílios, precisa ser de boa qualidade.

Dentre outros métodos usados para melhorar a qualidade da água, a fervura é o processo mais seguro por estar ao alcance de qualquer pessoa em quaisquer condições locais, podendo ainda lançar-se mão de outros processos para destruir germes patogênicos, como os desinfetantes, principalmente o hipoclorito de sódio, de cálcio ou de iodo. Pode ser usado concomitante filtro natural, artificial ou decantação para remover substância em suspensão (LAMPERT et al., 1994).

Também investigamos o destino do lixo das famílias objeto da presente pesquisa.Os resultados estão demonstrados a seguir:

- Destino do lixo das famílias pesquisadas. Farias Brito-CE, 2003.

DESTINO DO LIXO

Coleta pública -> 12 (34,3%)
Queimado -> 04 (11,4%)
Jogado a céu aberto ->19 (54,3%)
TOTAL -> 35 (100,0%)


Quanto ao destino do lixo, pudemos observar que 34,5% das famílias têm acesso a coleta pública regular, 11,4% queima o lixo e 54,3% joga seus dejetos a céu aberto.

São de Foranttini (1973), as seguintes afirmações:

O lixo representa componente que não pode ser desprezado no estudo da estrutura epidemiológica de vários agravos à saúde. Contudo, a sua influência se faz sentir, principalmente, por vias indiretas. Assim é que ele propicia condições que facilita ou mesmo possibilitam a ação de múltiplos fatores. Do conjunto destes últimos resultam, como efeitos, os vários inconvenientes à saúde e bem-estar da comunidade.

O destino inadequado do lixo pode trazer uma série de conseqüências desagradáveis para as famílias e para os moradores do entorno, onde é depositado lixo. Segundo Rouquayrol (1999), o lixo é, principalmente, uma via indireta de transmissão de doenças, podendo conter agentes biológicos patogênicos ou resíduos químicos tóxicos, os quais podem alcançar o homem, por via direta e indireta, prejudicando-lhe a saúde.




 REFERÊNCIAS


BARBOSA, N.M.M. et al. Follow up do bebê de risco. Temas de pediatria Nestlé, V. 53, 1993.
BARTLETT, A.V; HURTADO, E. SCHROEDER, D.G. et al. Association of indicatons of hygiene behavior withs persistent diarrhea of young of children. Acta Paediatrica, stokhdm. V. 81, suppl. 381, p. 66-71, 1992.
BARROS, F.C. & VICTORA, C.G; 1990. Breastfeeding and Diarrhea in Brazilian Children. Demographic and Health Surveys Further Analyses Series 3. New York: Population council.
BEMFAM (Sociedade Civil Bem- Estar Familiar no Brasil). Programas de Pesquisas de Demografia e Saúde (DHS); Brasil, Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde. Rio de Janeiro: BEMFAM, 1997.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde da Criança: acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2002.
BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde da criança: acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil. Caderno de Atenção Básica- nº 11. Brasília: Ministério da saúde, 2002. 100 p. 12,15,16,75.
CAETANO, L.C. Aleitamento Materno: Fatores que contribuem para a sua prática. Dissertação de Mestrado, São Paulo: Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, 1992.
CEARÁ. Secretaria da Saúde do Estado. Manual de normas para a saúde da criança na atenção primária: Módulo I- Puericultura. Fortaleza: SESA, 2002 53 p. (p. 27 e 33).
COMISSION INTERSECTORIAL PARA LA PROMOCIÓN DEL DESARROLLO PSICOSOCIAL DE LA INFANCIA. Documento marco. Argentina. Out. 1996.
FIGUEIRA, F. ;ALVES, J.G.B; MAGGI, R.S; CORREIA, J.B. Diagnóstico e Tratamento em Pediatria: Instituto Materno- Infantil de Pernambuco (IMIP) 2ª ed. Editora MEDSI. Recife, 2001. 473 p.(18,19,31,51).
FORATINI, OP. Aspectos epidemiológicos ligados ao lixo. In: Faculdade de Saúde Pública, USP, Resíduos sólidos e limpeza pública, São Paulo. 1973, p.3.
HABICHT, J.P. et al. Height and Weight standardes for preschool children. How crelevant are ethnics differences in growth potencial? lancet, n. I, p. 661 – 4, 1974.
GIL, A. C. Como Elaborar Projetos de Pesquisas. 3ed. São Paulo: Atlas, 1996.
LAMPERT, J.B. et al. Condições de Saneamento domiciliar da cidade de Santa Maria. Revista Saúde, São Paulo, V. 20, n-3-4, p. 53-63, julho/dez. 1994.
LEONE, C.R; TRONCHIN, M.R. Assistência Integrada ao Recém - nascido. São Paulo: Atheneu. 1996.
MARCONDES, E. Pediatria Básica. 8ª ed. São Paulo: Sarvier, 1992- p. 308- 339.
MARTURANO, E.M. A criança, o insucesso escolar precoce e a família: condições de resiliência e vulnerabilidade. Estudos em Saúde Mental, Ribeirão Preto, p. 130-149, 1997.
MONTRONE; V.G. ARANTES, C.I.S. Prevalência ao aleitamento materno na cidade de São Carlos, São Paulo. Jornal de Pediatria, V. 76, n-2, p. 138-141, Rio de Janeiro,2000.
NOBREGA, F.J; VITOLO, M.R; BRASIL, A. L. & LOPES, F.A; 1991. Condição nutricional de mães e filhos: Relação com o peso ao nascimeto, variáveis maternas e socioeconômicas. Jornal de Pediatria, 67: 288-296.
ROUQUAYRAL, Maria Zélia. Epidemiológia & Saúde. 5ª ed. Rio de Janeiro: MEDSI, 1999. 600 p. (p. 417).
STEFANE, J.M.J. A enfermagem, o crescimento e desenvolvimento infantil.In: _________SHIMITZ, E.M.R. A enfermagem em pediatria e puericultura. São Paulo: Atheneu, 2000.
SCHMITZ, B.A.S. . Avaliação de um programa de atenção primária à Saúde: impacto sobre o estado nutricional. Tese de Doutorado, São Paulo: Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo, 1999.
SIGAUD, Cecília Helena de Siqueira. Enfermagem Pediátrica: O cuidado à criança e ao Adolescente. Editora Pedagógica e Universitária Ltda, São Paulo, 1996. 270 p. (p. 22 e 23).
UNICEF Brasil- Legislação, Normativas, Documentos e Declarações, 1990.
UNICEF. Conferência Histórica da ONU sobre crianças. Genebra, 4 de abril de 2002
WHO, Physical Status: The use and interpretation of anthropametry. Geneva: Report of a WHO Expert Committee, 1995 (WHO technical Report Senies, 854).



Sobre os autores:

1. Aliéren é Enfermeira do Programa de Saúde da Família em Farias Brito-CE.

2. Sheila Martins Alves é Enfermeira e Mestranda em Saúde Pública pela Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte-FMJ.
Criar um Site Grátis   |   Create a Free Website Denunciar  |  Publicidade  |  Sites Grátis no Comunidades.net