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SAÚDE COLETIVA: Coletânea. Número 1. Vol.1. Outubro/2007. ISSN 1982-1441



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4. A outra face da moeda : construção do cuidado de si


RESUMO

É notória a importância do cuidar como parte imanente a nossa essência humana e como tal responsável pela nossa reformulação e desenvolvimento ao longo da história. Sendo a enfermagem conhecida por ser a profissão do cuidado, cabe a nós, enquanto protagonistas na ocorrência deste processo, fazermos uma avaliação sobre a nossa atuação para poder lapidá-la a cada dia. Por isso, nossa pesquisa empenhou-se em conhecer as concepções e práticas do cuidado humano no ambiente hospitalar, especificamente na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), atentando-se para as diversas interfaces do mesmo. Para tanto, investiu-se em um estudo exploratório alicerçado na abordagem qualitativa, sendo o mesmo realizado entre os meses de novembro de 2006 a agosto de 2007. Tivemos como sujeitos da pesquisa os profissionais de enfermagem (enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem) de três instituições hospitalares de referência, localizadas no município de Crato – CE, os quais foram convidados a responder uma entrevista semi-estruturada composta por questões objetivas e subjetivas. Foram entrevistados ao todo 04 enfermeiros, 16 técnicos de enfermagem e 02 auxiliares de enfermagem. Através dos relatos percebeu-se uma visão pouco vasta sobre o cuidar, visto que a maioria dentre as classes estudadas restringiu o mesmo ao ambiente hospitalar, além disso, a maior parte dos profissionais em estudo referiu não cuidar de si. O que nos mostra que ainda há muito a si pensar para a ocorrência plena deste processo.
Palavras-chave: Cuidar. Saúde do trabalhador. Enfermagem.




INTRODUÇÃO


Ao longo do tempo, o cuidado vem sendo considerado como palavra norteadora da assistência de enfermagem. Entretanto, existe um paradoxo em virtude do unidirecionamento do mesmo, ou seja, ao mesmo tempo em que o ambiente hospitalar tem como missão salvar vidas e recuperar a saúde dos indivíduos enfermos, dificilmente tem a preocupação de promover e manter a saúde de seus funcionários.

Tomando esta controvérsia como ponto de partida, nos propomos a fazer um estudo que englobe os aspectos inerentes à humanização no mundo do trabalho organizacional. Mais especificamente, trata-se de uma análise das concepções e práticas do cuidado humano adotadas pela equipe de enfermagem, visando identificar as expressões envolvidas no cotidiano hospitalar, e as práticas que tais profissionais têm em relação a eles mesmos.

A elevada tensão emocional advinda do cuidado direto de pessoas fisicamente doentes ou lesadas, associadas às longas jornadas, a baixa remuneração, ao freqüente emprego duplo, ao desenvolvimento de tarefas exaustivas gera danos à saúde, propiciadores de acidentes e morte prematura dos trabalhadores de enfermagem.
Sem escolha, submetem-se a relações, organizações, condições e ambientes que contribuem significativamente para um sofrimento
inevitável. De acordo com Dejours (1993, p. 153), “O sofrimento é definido como o espaço de luta que cobre o campo situado entre de um lado, o ‘bem estar’, e, de outro a doença mental ou a loucura”.

Deste modo, não é exagero afirmar que o trabalho é algo imprescindível para a construção da sociedade, visto que o mesmo refere-se a própria sobrevivência e condicionamento social do indivíduo. Tal atividade não se resume apenas a um modo de ganhar a vida, mas sim, representa uma forma de inserção social, onde aspectos psíquicos e físicos estão intimamente ligados.

No que concerne a relação psíquica entre o trabalhador e a situação de trabalho, Dejours (1993) considera dois enfrentamentos fundamentais: O encontro entre registro imaginário (produzido pelo sujeito) e registro da realidade (produzido pela situação de trabalho); O encontro entre registro diacrônico (história singular do sujeito, seu passado, sua memória, sua personalidade) e registro sincrônico (contexto material, social e histórico das relações de trabalho).

A partir desta análise se deduz uma concepção de homem diferente da habitualmente presente nas ciências da administração e da gestão: a do homem concreto, vivo, sensível e sofredor, animado por uma imensa subjetividade.

E é exatamente por meio desta visão humanista, que se torna necessário uma grande mudança no modo de organização, direção e gestão hospitalar. Tal modificação não se restringe apenas a melhores condições físicas, nem a eliminação de agentes que prejudiquem a saúde biológica e o meio ambiente. Mas, sim, é imprescindível por parte do setor administrativo uma maior preocupação no que concerne a saúde mental dos seus funcionários. Eliminando-se, desta forma a poluição psíquica que atinge não somente o local de trabalho, mas também o ambiente familiar e social.

Enfim, todos esses aspectos apontam para a importância da realização desta pesquisa. Visto que, a mesma se atenta para as diversas interfaces do cuidado, as quais requerem um olhar que vá além, ou seja, que enxergue a outra face da moeda, representada aqui pela figura do cuidador. Pois só a partir do equilíbrio biopsicossocial e espiritual dessa categoria torna-se possível a ocorrência do cuidado humano em sua plenitude.

O estudo tem como objetivos Conhecer as concepções e práticas do cuidado humano no ambiente hospitalar, especificamente na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), atentando-se para as diversas interfaces do mesmo. Identificar a concepção dos profissionais de enfermagem sobre o cuidado humano;


REVISÃO DE LITERATURA

- INTERFACES DO CUIDAR

A palavra cuidar, semanticamente falando, significa: “Imaginar, meditar, cogitar, julgar [...]” (Ferreira, 2001, p. 221). Este julgamento deve perpassar o campo das habilidades técnico-científicas e englobar os aspectos inerentes à ética e a dignidade humana.

Boff (1999 apud Waldow, 2004) afirma que o cuidar é mais que um ato, é uma atitude. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização, de desenvolvimento e de envolvimento afetivo com o outro. O mesmo autor refere que através do cuidado as dimensões do céu (transcendência) e as dimensões de terra (imanência) buscam seu equilíbrio e co-existência. As dimensões privilegiadas por Boff são: o amar como fenômeno biológico, a justa medida, a ternura, a carícia, a cordialidade, a confiabilidade e a compaixão.

O que nos revela a complexidade do cuidar, pois o mesmo requer, além do conhecimento científico, a interação de diversas dimensões que incluem desde os sentimentos peculiares ao ser humano até os aspectos morais que o norteiam. Para Griffin (1983 apud Waldow, 2004) o cuidado realizado com envolvimento inclui o componente moral e emocional, caracterizando este como o autêntico cuidar, que inclui também o campo da cognição, da percepção, do conhecimento e da intuição.

De acordo com Roach (1993 apud Waldow, 2004) o ser humano manifesta comportamentos ao cuidar, que a autora considera “os atributos do cuidar”. Estes atributos representam os 05 “Cs”, que são: compaixão, competência, confiança, consciência e comprometimento.

A compaixão é entendida por participação na experiência do outro, sensibilidade à dor, permitindo uma qualidade de presença ao compartilhar a condição humana. Caracteriza-se por competência o estado de possuir conhecimento, habilidades, energia, capacidade de julgamento, experiência e motivação necessária para responder adequadamente as demandas de nossas responsabilidades profissionais.

A confiança trata-se de uma qualidade que se desenvolve através das relações de respeito, segurança e honestidade, sendo destruída, caso haja a insegurança e decepção. A autora refere ainda a consciência como um “[...] estado de consciência moral, ou seja, está conectada a natureza moral das coisas. É uma resposta intencional deliberada, significativa e racional” (Roach, 1993, Apud Waldow, 2004, p. 28). Já o comprometimento é definido como uma resposta afetiva complexa caracterizada por uma convergência entre nossos desejos e nossas obrigações e por uma escolha deliberada para agir de acordo com eles.

“Através de cuidar o outro, servindo-o através do cuidado, o ser humano vive o significado de sua própria vida. É estar no mundo, ter seu lugar [...]” (Waldow, 2004, p. 22). Tal pensamento é baseado na interpretação de cuidar feita por Heidegger (1969). De acordo com este autor, o cuidado é a essência do ser humano, que inclui uma dimensão ontológica, ou seja, é um modo de ser, sem ele deixa-se de ser humano. O homem é um ser que deve cuidar de si e dos outros.

Sendo assim, é correto afirmar que a partir do momento que o ser humano volta-se para si mesmo, atentando-se para suas necessidades e fraquezas é que o mesmo poderá compreender e cuidar do outro.


- O CUIDAR COMO ESSÊNCIA DA ENFERMAGEM

O cuidado humano não é algo exclusivo à enfermagem, pois tal atitude está presente em várias classes profissionais. Entretanto o cuidar é a razão de ser da nossa profissão, ou seja, é nossa meta principal, enquanto nas outras categorias o mesmo existe, mas não é o fundamento. De acordo com Waldow (1998, apud Waldow, 2004) o cuidado é considerado a ética da enfermagem.

Sendo assim, não é somente a pessoa enferma que necessita de cuidados, mas também os trabalhadores de enfermagem, visto que os mesmos, assim como todo ser humano, também se emocionam, amam, choram, sentem sede, fome, sono, medo, dor e têm seus desejos e suas aspirações, o seja, também apresentam necessidades a serem supridas.



-A CARGA PSÍQUICA SOBRE OS TRABALHADORES DE ENFERMAGEM

Os profissionais da área de enfermagem enfrentam cotidianamente situações que provocam estresse, fruto de tensão e ansiedade.

Menzies (1974 apud Waldow, 2004, p. 62) em seu estudo sobre ansiedade comenta que:
Enfermeiras em seu trabalho se confrontam com sentimentos contraditórios e profundos tais como piedade, amor, compaixão, culpa e ansiedade, ódio e ressentimento dirigidos aos pacientes, além de inveja pela atenção dispensada a eles. Muitos destes sentimentos são originados pela condição de sofrimento, morte, mutilações, entre outras que determinam impotência, revolta, pena […] As pressões do trabalho e uma compulsão de manter tudo organizado e sob controle acabam sobrecarregando a enfermeira, isso predispõe a criar uma identidade operacional.


Ou seja, ao defrontar-se com esse ambiente de constantes conflitos, a enfermeira utiliza-se de mecanismos de defesa, que visam afastar ou pelo menos amenizar o seu sofrimento. A este respeito Menzies (1974 apud Waldow, 2004, p. 62) aponta para quatro métodos de defesa utilizados pela equipe de enfermagem, os quais serão abordados a seguir:

- O primeiro é dissociação na relação enfermeiro-paciente, afirmando ela, que quanto mais próxima a relação, maior a probabilidade de tais profissionais experimentarem a ansiedade. Como conseqüência, os contatos buscam ser os mais breves possíveis, apenas para realização de tarefas. Outro método apontado é o que Menzies chama de despersonificação, categorização e negação do significado do indivíduo, onde os enfermeiros priorizam a execução de tarefas e de artifícios tão conhecidos na realidade hospitalar como a designação de categorias ou números ao se referirem aos pacientes.

- A ritualização de tarefas é outro método apontado por Menzies (1974), tal estratégia evita as posturas mais autônomas que exijam a tomada de decisões. E por último vem a negação dos sentimentos que tem como características a conduta energética e tranqüilizadora e os conselhos tais como: É necessário manter o controle ‘adotar uma postura profissional’, ou seja, significa uma barreira para o envolvimento emocional entre enfermeiro (a) e paciente. Neste sentido Waldow (2004, p. 63) ressalta que “Até recentemente era considerado inadmissível chorar ou tocar mais afetuosamente os pacientes”.


- O AMBIENTE HOSPITALAR E SUAS REPERCUSSÕES NA QUALIDADE DE VIDA DO TRABALHADOR

De um modo geral, o trabalho constitui-se em uma atividade de significância relevante, tendo em vista, além de suas repercussões no campo econômico e social, a sua direta relação com os aspectos psicológicos, emocionais e espirituais que norteiam o trabalhador.

Para Lunardi Filho (1997, p. 85) “O trabalho desponta como algo que complementa e dá sentido a vida, constituindo-se numa das coisas mais importantes de ordem econômica ou emocional
Entretanto, em virtude de fatores tais como o excesso de tarefas que são impostas as (os) enfermeiras (os) e muitas vezes a falta de condições para realizá-las adequadamente, associada as expectativas médicas e da administração, dentre outras, geram sentimentos de impotência, ansiedade, culpa e medo, acarretadores de um imenso sofrimento no trabalho hospitalar.

Acerca disso, Lunardi Filho (1997) aponta como causas da imputação de culpa pelo insucesso das ações, as críticas depressiativas ao resultado do trabalho de enfermagem, ao não ser consideradas as condições nas quais o mesmo se realiza. Que acarreta sentimento de desânimo, desilusão, cansaço e desgosto frente ao não reconhecimento profissional, e conseqüente insatisfação pessoal.

Somado a isso, estão as manifestações de resignação e frustração diante da impossibilidade de concorrer para o alivio do sofrimento ou evitar a morte de um paciente. Visto que, apesar de o processo de morrer acontecer constantemente no ambiente hospitalar, em especial na UTI, o mesmo ainda representa uma incógnita, a qual a sociedade em geral não está preparada para enfrentá-la.

Ainda conforme Lunardi Filho (1997, p. 86), em seu estudo sobre o prazer e sofrimento do trabalho de enfermagem, as enfermeiras apontam que “[…] um sofrimento muito maior do que lidar com a morte, é o ato de ter de comunicá-la aos familiares”. Já para os auxiliares de enfermagem, uma das piores coisas inerentes ao seu trabalho é o preparo do corpo pós morte, situação percebida como muito mais terrível ao se tratar de uma criança ou natimorto.

A convivência com tal ambiente gera situações estressantes as quais repercutem maleficamente na saúde dos trabalhadores de enfermagem. O fator estresse e suas conseqüências são discutidos por uma gama de autores. De acordo com Firth: “A literatura também aponta para o burnout como um tipo específico de tensão psicológica que poderia ter relação com o stress” Tal distúrbio é entendido como uma diminuição de energia ou motivação para a tarefa, fazendo com que o indivíduo tenha sensação de vazio (Firth Et Al, 1987; Firth, 1989, Apud Sampaio, 1999, P.158).

O processo depressivo é outro problema que pode se desenvolver no cotidiano do trabalho hospitalar. Jones et al (1987 apud Sampaio, 1999) refere como uma das formas de sofrimento, a depressão relacionada a questões como exigências e obrigações da atividade associadas a ambigüidade em relação as expectativas dos superiores e o nível de sucesso frente a tais expectativas. Ainda no que concerne a organização do ambiente hospitalar, Lunardi Filho (1997) aponta para a complexidade do mesmo, o qual apresenta uma dimensão coletiva ao ser realizado por uma equipe de trabalhadores que requer um bom desempenho individual, um clima de harmonia, compreensão e respeito para sua concretização.



METODOLOGIA

- CENÁRIO DA PESQUISA

O estudo teve como cenário o ambiente hospitalar, especificamente, a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Para a coleta de dados, selecionamos três instituições hospitalares do município do Crato, na região do Cariri, estado do Ceará.


- PERFIL DO MÉTODO UTILIZADO

Para a conclusão deste estudo, investiu-se em um estudo exploratório com alicerce na abordagem qualitativa e tendo como pano de fundo um design descritivo.

As metodologias qualitativas, entre outros aspectos proporcionam melhor interação do pesquisador com o sujeito de estudo, formando possível a observação dos fenômenos em sua real veracidade, buscando a manutenção de relações constantes entre os eventos observados, o contexto onde se inserem e o papel dos atores na construção de sua realidade. (Minayo, 1994; Demo, 1994; Marconi e Lakatos, 1990; Guimarães 1995).

Diz-se que uma das características do processo de investigação exploratório é ter pouco ou nenhum conhecimento sobre o assunto. As pesquisas exploratórias são desenvolvidas com o objetivo de “[…] proporcionar geral, e do tipo aproximativo, acerca de determinado fato” (Gil, 1999, p. 43).

Nos estudos descritivos, o fato essencial reside na intenção de conhecer o inverso do estudo, a “[…] descrição das características de uma determinada população ou fenômeno ou estabelecimento de relações variadas” (Gil 1999, p. 44).


- OS PROTAGONISTAS

Os protagonistas desta pesquisa foram as equipes de Enfermagem dos Hospitais de referência do município do Crato-CE, Auxiliares, Técnicos de Enfermagem e Enfermeiros. Desenvolvemos a pesquisa no período de novembro de 2006 a agosto de 2007. No total foram entrevistados 22 profissionais da área de enfermagem, sendo 04 enfermeiros, 16 técnicos de enfermagem e 02 auxiliares de enfermagem.


- DESENHANDO A OPERACIONALIZAÇÃO DA PROPOSTA

A operacionalização da proposta é uma das fases decisivas na confecção do estudo científico. Para o êxito do processo de investigação é necessário que os dados sejam colhidos em um processo de idas e vindas nas diversas etapas da pesquisa e na interação com seus sujeitos (Cervo e Bervian,1983).

Para o desenvolvimento deste estudo, utilizamos instrumentos ligados à antropologia, psicologia e sociologia. Os instrumentos que foram utilizados para a construção de objeto de estudo quanto para a coleta de dados foram os mais sensíveis possíveis para que assim capte a realidade. Para compor a pesquisa utilizamos como instrumento de coleta de dados a entrevista semi-estruturada contendo perguntas abertas e fechadas. As perguntas fechadas contemplaram as seguintes questões de caracterização dos sujeitos: sexo, cidade, tempo na organização, profissão. As questões abertas versaram sobre o cuidar na organização .

A escolha da entrevista tem como respaldo nas considerações de Lakatos e Marcondes (1994), a entrevista é considerada no meio científico como instrumento cientifico da investigação social oferecendo algumas vantagens, entre as quais: uma maior flexibilidade para esclarecer as perguntas ou formulá-las de uma maneira diferente, garantindo, assim, a compreensão do entrevistado sobre as mesmas: uma maior oportunidade para observar as reações do sujeito durante sua realização e uma maior precisão nas informações.

A entrevista semi-estruturada supõe uma conversação continuada entre informante e pesquisados, a entrevista está presente em todas as formas de coleta de dados dos relatos orais, pois estes implicam sempre um colóquio entre pesquisador e narrador.

As entrevistas realizadas nos possibilitaram assim um envolvimento pessoal, um compartilhar consciente e sistemático nas atividades de vida, nos interesses e afetos do grupo pesquisado. Nesta etapa, foram entrevistados a equipe de enfermagem, (Auxiliares, Técnicos de Enfermagem e Enfermeiros), de hospitais do Crato.
Em relação aos aspectos éticos, durante a implementação da pesquisa, foram atendidas as exigências das Diretrizes e Normas da Pesquisa em Seres Humanos apresentadas na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), acerca das questões éticas da pesquisa, envolvendo seres humanos.

Quanto às entrevistas, somente foram realizadas após a exposição do tema e objetivos da pesquisa, dos cuidados referentes ao sigilo dos informantes e do caráter voluntário da participação. Os depoimentos foram gravados com a aquiescência dos entrevistados, para posterior transcrição. As entrevistas foram transcritas e lidas com a finalidade de identificar os núcleos que expressam a idéia central do estudo.


- ANÁLISE DE DADOS

A análise dos dados foi efetuada utilizando-se a técnica de análise de conteúdo. Segundo Gomes (1995), esta técnica consiste, basicamente, numa leitura atenta de cada descrição individual do assunto investigado a fim de apreender o significado contido na mensagem emitida pelo sujeito.

De acordo com Minayo (1998, p. 209-210) a metodologia de análise de conteúdo na retomada das hipóteses e dos objetivos iniciais da pesquisa, reformulando-as frente ao material coletado; e na elaboração indicadores que orientem a interpretação final.

1 – Exploração do material: consiste essencialmente na operação codificação. Segundo Bardin, realiza-se na transformação dos dados brutos visando alcançar o núcleo de compreensão do texto.

2 – Tratamento dos resultados obtidos e interpretação: (...) o analista propõe inferências e realizar interpretações previstas no seu quadro teórico ou abre outras pistas em torno de dimensões teóricas sugeridas pela leituras do material.

A análise dos resultados fundamentou-se na literatura pertinente ao assunto e se encontra dividida nas seguintes categorias: a visão do cuidar; percepção da existência do cuidar no cotidiano; investigando a atuação no processo de cuidar dos demais seres do mundo; o cuidar no ambiente de trabalho; descrevendo o cuidar de si; empecilho ao processo de cuidar de si e dos outros.



DESVENDANDO A FACE OCULTA DA MOEDA

- O AVESSO DA MOEDA: DESVENDANDO AS INTERFACES DO CUIDADO

O cuidado é o alicerce da vida humana, ou seja, sem a sua existência o ser humano pereceria, visto que até mesmo os animais que são ditos como ‘seres irracionais’ utilizam-se deste fenômeno, por exemplo, ao zelar pelos seus filhotes em resposta aos instintos maternais. O que vem nos mostrar que o cuidado é algo necessário ao desenvolvimento de cada organismo vivo, além de se tratar de nossa própria essência enquanto seres humanos.


- A VISÃO DO CUIDAR

Leonardo Boff (1999) afirma que o cuidar não é apenas um ato, mas sim uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro. Falando em cuidar vejamos os seguintes depoimentos acerca do mesmo:

É algo bastante complexo […] não é apenas uma obrigação da profissão […] é uma responsabilidade, engloba os aspectos técnicos, patológicos, sócio-emocionais […]. ENFERMEIRO 01.

[…] é da assistência não só aos sintomas, mas ao todo […] é entender a parte social. ENFERMEIRO 04.

[…] atenção diária com o paciente […] ter respeito e ética […] não é só medicar […] é conversar, dar atenção e passar segurança. TÉCNICO DE ENFERMAGEM 01.

É estar presente quando o paciente necessita […]. TÉCNICO DE ENFERMAGEM 02.

É assistência as necessidades […] proporcionando o bem está físico e mental. TÉCNICO DE ENFERMAGEM 03.


Observando as falas acima, percebe-se que os entrevistados vêem o cuidar como uma responsabilidade peculiar à profissão. A maioria se restringe a fazer referência apenas à assistência prestada ao paciente, sem se atentar para o significado elementar do cuidar. O qual requer a nossa ação cuidadora em todos os aspectos de nossa vida, vindo desde o cuidado para com a gente mesmo até o cuidar com tudo e com todos que nos rodeiam.

Nesta mesma visão sobre o cuidar seguem se as falas:

[…] é a essência do mundo […] é passar carinho, toque, amor, ética, respeito […] o toque é a essência do cuidar, porque a gente toca com a mão que é a extensão do coração […]. ENFERMEIRO 02.

Cuidar é ver como ser humano e jamais como paciente […] é minimizar ou ajudar as necessidades básicas de alguém. TÉCNICO DE ENFERMAGEM 04.

[…] é tudo aquilo que você dispensa a uma pessoa, assim mesma, aos filhos, ao mundo […].TÉCNICO DE ENFERMAGEM 05.


Nas falas anteriores podemos perceber que os protagonistas relacionam o cuidar a essência humana, além de fazer alusão à necessidade permanente deste amplo processo. O que vem de acordo com Martin Heidegger (1989 apud BOFF, 1999, p. 34) ao referir que “o cuidado significa um fenômeno ontológico-existêncial básico”. Ou seja, refere-se à identidade profunda e a natureza de nosso ser, em outras palavras, significa um fenômeno possibilitador da existência humana enquanto humana.


- PERCEPÇÃO DA EXISTÊNCIA DO CUIDAR NO COTIDIANO

O homem é inegavelmente um ser social, que sobrevive de acordo com suas relações e com a forma de construir o seu habitat, seja por meio de suas ocupações na construção de seus projetos ou pela dedicação e preocupação para com as pessoas que considera importantes e imprescindíveis em sua convivência.

Segundo Boff (1999, p. 167), o ser humano é, simultaneamente, utópico e histórico-temporal, significa dizer que ao construir a sua existência no tempo, o homem vive o conflito entre a utopia, que o impulsiona ao olhar sempre para frente e buscar um ideal, e a sua história real que o obriga a agir com certa cautela e a estar sempre atento às ciladas e oportunidades que poderão surgir.

É exatamente nesse impasse que surge então o cuidado. Tal processo funciona como mediador e equilibrante ao longo de toda a vida, por meio de sua atuação como ethos fundamental. Ethos este que se refere aos princípios universais que regem o ser humano, transcendendo inclusive as barreiras culturais. E mais ainda, equivale ao método pelo qual se constrói o seu habitat pessoal e social.

Por falar sobre a atuação constante do cuidar, vejamos aonde os sujeitos da pesquisa enxergam presença do mesmo em seus cotidianos:

[…] em qualquer ambiente […] cuidando de si mesma, em nossa família, no trabalho principalmente. ENFERMEIRO 01.

[…] O dia inteiro […] Cuido de mim, dos meus pacientes, dos meus familiares, das minhas plantas […] ENFERMEIRO 02.

Durante todo o dia, em casa, no trabalho […] em todos os momentos da vida. ENFERMEIRO 03.

Através do exposto acima, percebe-se que apesar de serem citados alguns ambientes aonde o cuidar está inserido, é notória uma maior referência ao ambiente de trabalho. Revelando-nos a forte influência do fator trabalho sobre a vida da classe trabalhadora, especificamente sobre o seu processo saúde-doença.

Por meio do confronto entre homem-atividade de trabalho e as repercussões na vida psíquica que Dejours (1993) desenvolveu a chamada psicopatologia do trabalho. Esta abordagem entra em confrontação com o paradigma criado desde a revolução industrial, onde o mercado assumiu o papel regulador dos sistemas organizacionais, forçando o homem a submeter-se exclusivamente a lógica da produtividade. Tal proposição dejouriana remete a uma nova noção da relação trabalho e saúde mental dos trabalhadores, ao enxergar o homem como ser animado por uma imensa subjetividade, a qual tem sua composição na realidade social e psíquica do sujeito.

Cabe aos trabalhadores “[…] sonhar com os patamares mais altos da qualidade de vida para não se transformar em uma máquina de trabalhar e não se destruir pelo estresse e ansiedade.” (Cury, 2004, p. 148).

Ainda em resposta a percepção do cuidar no cotidiano, observemos aonde os seguintes protagonistas enxergam a sua necessidade:

[…] desde o momento que eu entro no hospital, em ouvir, em procurar soluções para os problemas. ENFERMEIRA 04.

Quando me coloco no lugar do paciente. TÉCNICO DE ENFERMAGEM 05.

Num paciente comatoso […] o paciente quando não aceita a medicação, quando a gente pede uma coisa e ele faz outra […] neste caso são mais especiais. TÉCNICO DE ENFERMAGEM 14.

Diante da necessidade do doente […]. TÉCNICO DE ENFERMAGEM 16.


Através desses relatos, nota-se que os sujeitos da pesquisa apresentam uma visão muito restrita acerca da atuação do processo de cuidar, tendo em vista que todos referenciaram a existência do cuidar somente em suas interações com o paciente, limitando-se apenas ao ambiente de trabalho sem ao menos lembrar-se do cuidado com eles mesmos, algo crucial para cuidar-se dos outros.

Neste sentido, Waldow (2004) afirma que a capacidade de cuidar estar relacionada ao quanto e como o ser foi cuidado. “[…] o cuidado qualifica nossos relacionamentos com os outros e, o que é mais importante, permite que o outro cresça e se desenvolva” (Mayeroff, 1971, apud Waldow, 2004, p. 19).


- INVESTIGANDO A ATUAÇÃO NO PROCESSO DE CUIDAR DOS DEMAIS SERES DO MUNDO

Partindo do princípio de que não somos seres isolados, nem externos ao universo, cabe a nós dispensarmos uma maior atenção no sentido de preservar os demais seres do mundo. E esta atitude de conservação deve guiar o nosso comportamento desde a nossa casa, passando por nossa comunidade até alcançarmos um inegável benefício global.

“[…] significa cuidar para que possamos ser capazes de reelaborar cada vez mais a tutela e exigir cidadania, onde o \"meu\" projeto de autonomia só existe enquanto parte integrante da autonomia coletiva […]” (Pires, 2005, p.573). Pois enquanto agirmos de maneira impensada, achando que determinadas ações, por menores que sejam não repercutirão no restante do planeta, continuaremos dando força ao efeito dominó que está minando dia-a-dia a nossa sobrevivência.

Nesta vertente Boff (1999, p. 134) retrata que: “Para cuidar do planeta precisamos todos passar por uma alfabetização ecológica e rever nossos atos de consumo. Importa desenvolver uma ética do cuidado”. Já que somente este modo de ser no mundo é que permite o ser humano viver a experiência fundamental do valor. Não de um valor egoísta e utilitarista, mais sim, a idéia da valorização de sentimentos de união, convivência e interação com os demais seres do mundo.

Ainda na mesma linha de pensamento, vejamos as falas que seguem:

O cuidado com os demais seres do mundo é fundamental para que haja harmonia com você e com o universo […]. ENFERMEIRO 02.

Apesar de ser apenas um grãozinho, eu faço a diferença através da minha dedicação e do meu desejo de cuidar. TÉCNICO DE ENFERMAGEM 13.


Isto nos remete a importância do papel de cada um de nós enquanto seres de cuidado. Deste modo, devemos deixar de enxergar a natureza e tudo que nela existe como objetos e passar a tratá-los como sujeito tais como eles são. Pois só assim validaremos a nossa essência como cuidadores.

Permanecendo nesta mesma indagação, vejamos o que segue:

Eu não percebo […] tento agir da melhor forma possível, a pessoa que está sendo ajudada é que vai perceber se está sendo adequado ou não. AUXILIAR 02.

Por ser profissional da saúde a gente tem uma forte influência no cuidado da população […] principalmente no que complete a prevenção. ENFERMEIRO 03.

[…] varia, porque todo não é igual, pela diferença de cuidados de um para o outro. TÉCNICO DE ENFERMAGEM 14.

Procuro o cuidado voltado para as pessoas que estão ao meu redor, especialmente os pacientes […]. ENFERMEIRO 01.

Quando você trabalha, você vem porque é um dever, já em casa é algo espontâneo […].TÉCNICO DE ENFERMAGEM 12.


Mais uma vez, os sujeitos da pesquisa detêm-se em fazer uma alusão distorcida sobre o cuidado, ao não percebê-lo como um modo de ser do humano, e sim como uma exigência da sua profissão. Quando na verdade, o cuidar em si é, ao mesmo tempo, único e universal. Único porque só cuidamos daquilo que nos desperta afeto, é algo que acontece de forma natural, independente do lugar e da circunstância. E universal porque é comum a toda humanidade.



- O CUIDAR NO AMBIENTE DE TRABALHO

Tendo em vista a contemporaneidade da ordem capitalista, onde o importante é a eficácia, rapidez e lucro, torna-se evidente as conseqüências deste sistema no equilíbrio psíquico e saúde mental dos trabalhadores. Dejours (1993) aponta que a causa dos desequilíbrios psíquicos e mentais encontra-se na organização do trabalho.

Estas relações nocivas à saúde do trabalhador, não se limitam apenas ao ramo industrial, mas sim alcançam o modo de viver de todas as pessoas. Sendo assim, nem mesmo o ambiente hospitalar, onde a meta é o cuidar, está livre das conseqüências deste regime tão devastador e explorador dos recursos humanos. Este descuido fora retratado pelos sujeitos da pesquisa ao falarem sobre como ocorre o cuidar no cotidiano do trabalho. Vejamos o que segue:

[...] é péssimo [...] não são todos que tem a percepção de cuidar [...] vem as condições que a empresa não proporciona, [...] os superiores que não tem palavras de estímulos, de elogio, só tem cobrança, o salário não compensa [...] TÉCNICO DE ENFERMAGEM 07.

[...] é precário, muitas pessoas não respeitam o próximo, agridem com palavras [...] Devido ao estresse do trabalho, 12 horas seguidas, as vezes é tanta coisa pra fazer que se descuida do paciente [...] TÉCNICO DE ENFERMAGEM 08.

[...] a gente procura fazer o que pode [...] faz muito improviso, mas só em a gente fazer o que gosta TÉCNICO DE ENFERMAGEM 11.

[...] é muito insatisfatório [...] não é de forma espontânea, cuida-se por cuidar, único e exclusivamente por obrigação AUXILIAR DE ENFERMAGEM 02.

[...] Não existe muita preocupação com relação a gente não. A gente mesmo é que tem que se preocupar consigo TÉCNICO DE ENFERMAGEM 12.


Observando o explanado acima, percebe-se um total descaso por parte dos empregadores no que concerne a satisfação e a saúde dos seus funcionários. Visto que não proporcionam se quer condições a um bom desenvolvimento dos serviços prestados, seja pela escassez de recursos materiais e humanos ou pela sobrecarga de trabalho. Somando a isso, ainda encontra-se a baixa remuneração e a falta de incentivo, associada as constantes cobranças por um bom desempenho. O que pode gerar nesses profissionais sentimentos de frustração e descontentamento, tendo como conseqüência certo descuido para com os pacientes. Pois se não há cuidado com os cuidadores, certamente o cuidar do outro estará comprometido.

Cabe então dizer: “A gerência dos serviços de saúde devem priorizar o investimento em seu capital humano, pois essa é a verdadeira riqueza de qualquer empresa.” (Feitosa, 2001, p. 83).

É nesta perspectiva de inter-relação de um ambiente de trabalho saudável com o cuidar em plenitude, que segue o relato:

[...] Me sinto um elo de fundamental importância dentro do processo de cuidar [...] que requer profissional que tente harmonizar esse trabalho dentro do grupo. Porque enfermeiro é essencial para isso ENFERMEIRO 02.

Vale ressaltar ainda que seria injusto de nossa parte atribuir a defasagem do cuidar no mundo do trabalho somente ao modo de produção ou às estruturas organizacionais. Visto que, a isso somam-se as discrepâncias na forma de ser, discernir e de agir de cada pessoa frente aos diversos desafios encontrados. Portanto cada um tem o seu modo de cuidar de si e dos outros.



- DESCREVENDO O CUIDAR DE SI

No que concerne ao cuidar que os profissionais de enfermagem tem em relação a eles mesmos, 75% dos enfermeiros entrevistados afirmaram não terem tempo para o cuidado de si. Na categoria técnico de enfermagem este percentual foi de 50%, sendo que da outra parcela restante, 20% mostraram uma forma restrita de se cuidar, perfazendo um total de 70% entre os protagonistas que não atuam adequadamente no seu processo saúde-doença. Já na categoria de auxiliar de enfermagem 50% referiram não cuidarem de si, e os outros 50% não chegaram a descrever um modo de se cuidarem. Vejamos agora alguns dos relatos:

[...] A gente não tem tempo para se cuidar, infelizmente [...] ENFERMEIRO 04.

[...] Taí uma coisa que eu não faço é me cuidar, eu só lembro de mim quando eu sinto dor TÉCNICO DE ENFERMAGEM 10.

[...] mau, porque a partir do momento que você cuida dos outros, esquece de você [...] TÉCNICO DE ENFERMAGEM 14.

[...] Aí é aonde tá [...] eu sou a última a me cuidar, pois cuido primeiro dos outros TÉCNICO DE ENFERMAGEM 04.

[...] Em virtude das inúmeras atividades inerentes a profissão e a sobrecarga de trabalho, a gente não tem tempo para o cuidado de si [...] ENFERMEIRO 01.


Este resultado nos revela mais uma vez o quanto as condições desfavoráveis de trabalho, tais como a longa jornada e o excesso de atividades implicam em danos à qualidade de vida da classe trabalhadora. Somado a isso, ainda encontra-se a negligência por parte desses profissionais de enfermagem no que concerne ao cuidar de si.

Para uma mudança dessa realidade, é necessário “[…] adotar um olhar que não se detém apenas nos aspectos biológicos, incorporando o psíquico e o social e que requer a atuação sobre os problemas humanos no trabalho a partir de um outro locus, o do serviço de saúde.” (Sato et al, 2006, p. 283-284).

De acordo com o que já fora explanado, os profissionais se desprendem do cuidar de si, algo imprescindível ao cuidado pleno, para se empenhar em inúmeras atividades da profissão, com o pensamento errôneo de que é possível cuidar de alguém, sem sentir-se bem biopsíquico consigo mesmo.

Dando continuidade a descrição sobre o processo de cuidar de si, vejamos as seguintes falas:

[...] Em primeiro lugar, tomar banho, adoro me proteger [...] TÉCNICO DE ENFERMAGEM 02.

[...] Boa alimentação, higiene, exercícios, ler e acima de tudo se proteger no ambiente de trabalho TÉCNICO DE ENFERMAGEM 01.

[...] gosto de fazer exames periodicamente [...] faço a minha higiene corporal [...] TÉCNICO DE ENFERMAGEM 16.


Diante do exposto acima, é notório a constatação de que estes protagonistas percebem o cuidar de si apenas como uma forma de proteção contra doenças, ou seja, somente se atentam para o aspecto físico. Isto revela que os mesmos vêem a saúde equivocadamente como um bem-estar físico, e não como um processo resultante da interação de fatores biopsíquicos, sócio-culturais e espirituais.

O atual enfoque sobre a visão do processo saúde e trabalho, supera esta visão dos sujeitos, alterando-a para uma “[…] perspectiva de interação entre o biológico e o psíquico, constituindo um nexo psicofísico indissociável, cujo desequilíbrio, mediado pelas relações sociais, pode expressar-se numa ampla e variada gama de distúrbios […]” (Sato et al, 2006, p. 283).



CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tendo em mente o cuidar com suas diversas interfaces, a única certeza que temos é o seu caráter altamente complexo, pois todo fenômeno em si é raro e requer a interação de vários processos evolutivos.

Ao longo deste estudo, que visou adentrar no universo do cuidar, percebeu-se que ainda estamos longe de alcançarmos o seu verdadeiro significado, o qual por ter um caráter dinâmico, convoca a sairmos da inércia causada pela mitificação deste processo, onde apenas são admiradas as belas teorias a seu respeito, sem buscar vivê-las na realidade. Fazendo com que nos desprendamos de algo tão essencial que é o cuidar de si e dos outros.

Por meio do que fora retratado, tornaram-se evidentes varias contradições na forma de desenvolver-se o cuidar no ambiente hospitalar. Pois, apesar desse meio ter como missão básica a preservação da vida, não ocorrem intervenções na busca por um cuidar integral. Vista a inexistência de esforços suficientes para que os seus próprios funcionários atinjam um grau mais elevado de satisfação, gerando impactos nocivos à qualidade de vida da classe trabalhadora.

Tudo isso contribui para a não ocorrência do cuidar em sua plenitude, ao ser impossível cuidar do outro sem antes cuidar de si mesmo. Vale ainda ressaltar que, no âmbito do processo saúde-doença, devemos, não somente desviar o foco da doença para a pessoa doente, mas sim, cabe-nos a reformulação desta frase, passando a dizê-la de forma mais ampla.Ficando então assim: há que mudar o foco da doença para o sujeito doente e para o cuidador. Pois só assim enxergaremos a face oculta da moeda




REFERÊNCIAS

BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
DEJOURS, Christophe. Uma nova visão do sofrimento humano nas organizações. Atlas 1993 págs. 149-73. [(iah) AdSaúde id: 5677].
FILHO, Wilson Danilo Lunardi. Prazer e sofrimento no trabalho: contribuições à organização do processo de trabalho da enfermagem. R. Brás. Enferm., Brasília, v. 50, n. 1, p. 77-92, jan/mar. 1997.
GOMEZ, CM e COSTA,SMFT. Incorporação das ciências sociais na produção de conhecimentos sobre trabalho e saúde. . IN: Ciências e Saúde Coletiva. v.08, n.1, p. 25-36, 2003.
GOMES, R. A análise de dados em pesquisa qualitativa. In: MINAGO, M.C.S. e Coli, pesquisa social: teoria, método e criatividade , 4 ed. Petrópolis: Vozes, 1994.
LAKATOS, E. M. e MARCONI, M.A. Fundamentos de metodologia científica. São Paulo: Atlas, 1994.
PIRES, MRGM. Politicidade do cuidado e processo de trabalho em saúde: conhecer para cuidar melhor, cuidar para confrontar, cuidar para emancipar. IN: Ciências e Saúde Coletiva. v.10, n.4, p. 1025-1035, 2005.
PIRES, MRGM. Politicidade do cuidado e avaliação em saúde: instrumentalizando o resgate da autonomia de sujeitos no âmbito de programas e políticas de saúde. IN: Ver. Bras. Saúde Matern. Infant. Recife, v.5, supl 1., p. 571-581, dez., 2005.
SAMPAIO, José Jackson Coelho et al. Trabalho, Saúde e Subjetividade. Fortaleza: Ed. INESP/ EDUECE, 1999.
SATO, Leny et al. Psicologia e saúde do trabalhador: práticas de investigação na Saúde Pública de São Paulo. IN: Estudos de Psicologia. São Paulo-SP, v.11, n.3, p. 281-288, 2006.
WALDOW, Vera Regina. O cuidado na saúde: as relações entre o eu, o outro e o cosmos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.




Sobre as autoras:

1. Cleide Correia de Oliveira é Enfermeira, Professora da Universidade Regional do Cariri. (Cleidecorreia27@hotmail.com);

2. Rebeca Amâncio Antes Portão é Graduada em Enfermagem pela universidade Regional do Cariri.

3. Emiliana Bezerra Gomes é Professora do Departamento de Enfermagem da Universidade Regional do Cariri.

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