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SAÚDE COLETIVA: Coletânea. Número 1. Vol.1. Outubro/2007. ISSN 1982-1441



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5. Promoção do aleitamento materno exlusivo em unidades de Programa de Saúde da Família

 RESUMO


Trata-se de estudo descritivo com abordagem qualitativa que objetivou analisar as atividades educativas em aleitamento materno desenvolvidas por enfermeiros do Programa de Saúde da Família - PSF. Teve como questões norteadoras: De que forma são realizadas as atividades educativas em aleitamento materno? Que dificuldades os enfermeiros vivenciam durante esta prática? A amostra foi composta por seis enfermeiros de PSF, e os dados foram coletados no período de junho de 2005 a junho de 2006. Os resultados revelam que os enfermeiros encontraram fortes entraves no aconselhamento à prática do aleitamento materno. Contudo, constatou-se que estes profissionais devem atuar contornando as dificuldades e motivando a amamentação, para conseqüentemente contribuírem para a redução da morbi-mortalidade infantil.

Palavras-chaves: atividade educativa, aleitamento materno, enfermeiro.





 INTRODUÇÃO

Ao se observar a prática do aleitamento materno de forma histórica, verifica-se que a história é pródiga na revelação do reconhecimento da importância do leite materno, pois data de tempos imemoriais, em todas as culturas antigas esta prática está documentada através de acervos históricos: esculturas, pinturas, pergaminhos, etc. Até os egípcios reverenciaram sua deusa Isis, a mais importante de todas, ao lado do filho Horus, sempre ao seio. O próprio cristianismo exalta a mãe e o filho como símbolo de amor puro, sagrado; escultores hititas eternizaram na pedra o ato nobre, o festival de amor eterno, que se cristaliza no ato de amamentar (FONTES, 1984).

Atrelado ao respaldo dado ao aleitamento materno ao longo da história da civilização humana o Ministério da Saúde do Brasil (MS), recomenda que o aleitamento materno seja exclusivo até os 6 meses, considerando os atuais dados de prevalência da desnutrição e mortalidade e morbidade infantil, particularmente por doenças diarréicas, também recomendam que o aleitamento materno seja mantido até os 2 anos, uma vez que o leite materno continua a ser uma importante fonte de nutrientes mesmo para as crianças maiores de 1 ano (MONTE E SÁ, 1999).

A Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para Infância (UNICEF) vêm, há muitos anos, enfatizando a importância de se conservar a prática de aleitamento materno – e de reviver a prática onde estiver em declínio – como uma forma de melhorar a saúde e a nutrição dos lactentes e das crianças pequenas. Os esforços para o estabelecimento da amamentação e para a transposição dos problemas que possam desencorajá-la, fazem parte de todos os programas de nutrição e de saúde materno-infantil de ambas as organizações e são um elemento chave da assistência primária à saúde (MARTINS FILHO, 1984).

No âmbito histórico das leis e normas de comercialização de produtos industrializados usados como “substitutos do leite materno”, comenta-se que de acordo com o Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno – Organização Mundial de Saúde – Genebra, 1981, os governos devem ter a responsabilidade de assegurar que sejam fornecidas informações consistentes e objetivas sobre a alimentação de lactentes, visando atingir as gestantes e mães de lactentes, incluindo informações claras sobre os seguintes pontos: os benefícios e a superioridade da amamentação; nutrição materna e preparação para a manutenção da amamentação; o efeito negativo sobre a amamentação da introdução da alimentação parcial por mamadeira, dentre outros. Bem como, não oferecer quaisquer vantagens financeiras ou materiais para promover os produtos ao pessoal da área de saúde ou aos membros da família, visando com isso rever as atividades de vendas de alimentos infantis e introduzir medidas apropriadas de apoio e promoção à amamentação (MARTINS FILHO, 1984).

Bassoul (1998) afirma que durante muitos anos, porém, houve uma tendência à substituição do seio materno pelas mamadeiras. Isso foi fruto da propaganda das indústrias de leite em pó, que estimulavam o consumo de seus produtos. Esta artificialização dos costumes determina o declínio no ato de amamentar. Para Martins Filho (1984, p. 80),

Fundamentalmente, em alguns Países desenvolvidos, e mesmo no terceiro mundo, o progresso industrial dos leites artificiais, com a grande disponibilidade de fórmulas prontas no mercado, e mesmo a propaganda, feita durante muito tempo de maneira inconsciente e agressiva, visando mudar o hábito de alimentação ao seio, constituíram fatores que tiveram papel muito importante na problemática da amamentação.

Essas empresas produtoras de leite, que desenvolveram a maciça campanha publicitária em prol do leite de vaca industrializado, centraram suas campanhas inicialmente nos agentes de saúde. Organizaram e patrocinaram congressos de medicina e apoiaram leitura sobre as vantagens do leite artificial, fazendo com que, aos poucos, a mentalidade dos profissionais de saúde fosse mudando e o aleitamento materno ficasse quase que completamente esquecido (MOTA, ROQUE & ROSSI, 1990).

Aliado às campanhas publicitárias, nas faculdades da área da saúde pouco ou nada se falava em relação ao aleitamento materno. Nas disciplinas de ginecologia, a mama era reconhecida e estudada apenas como depósito de doenças, com seus cistos, nódulos e carcinomas. Segundo Mota, Roque & Rossi (1990, p. 30) “a glândula mamária não tinha mais fisiologia: era só patologia”.

Contudo, o leite humano é a forma mais econômica de alimentação. Ele está sempre disponível, pronto para ser servido à temperatura ambiente e isento de contaminação. É rico em glicídios, protídios, lipídios, minerais e vitaminas. As qualidades do leite humano estendem-se desde o suprimento das necessidades nutricionais até a garantia do bem-estar psicológico do bebê e da mãe. E, além das qualidades fisiológicas do leite humano, o mais duradouro benefício psicológico do aleitamento materno é a íntima relação mãe-filho.

O leite humano, por possuir todos os nutrientes necessários para o perfeito crescimento e desenvolvimento do bebê apresenta-se como o melhor alimento durante os primeiros seis meses de vida.

É nos primeiros meses de vida que a criança passa por uma série de mudanças adaptativas à vida extra-útero, apresentando um acentuado desenvolvimento fisiológico e psicológico, além de deparar-se com uma vulnerabilidade expressa através de altos índices de mortalidade, letalidade e morbidade. Para Woiski (1988, p. 39),

Nesses primeiros meses de vida, a Natureza coloca como protetor contra essa vulnerabilidade e como garantia de desenvolvimento ideal, o aleitamento materno, função biológica aperfeiçoada por milhões de anos de evolução, com uma natural adequação espécie-específica e indiscutivelmente superior a qualquer outra forma artificial de aleitar a criança que possa ser concebida pela tecnologia humana.



O ato de amamentar propicia uma maior proximidade e intimidade entre mãe e filho, transmitindo segurança, afeto, suprindo as necessidades nutricionais, bem como emocionais do recém nascido da espécie humana de ser contido e tocado (KING, 1994).


 DESMAME PRECOCE

A amamentação tem sido uma conduta apoiada oficialmente pela Organização Mundial de Saúde - OMS , pela Associação Internacional de Pediatria, pela Academia Americana de Pediatria e pela Sociedade Canadense de Pediatria, uma vez que esta prática tem um potencial de saúde preventivo tanto nos países industrializados como nos países em desenvolvimento (KENNER, 2001).

Contudo, a dificuldade de manejo da amamentação, a influência de parentes e vizinhos, bem como a preocupação com a estética: medo de as mamas ficarem flácidas e caídas, também podem facilitar a introdução precoce de alimentos complementares (MONTE & SÁ, 1998) (VINHA, 1999).
A associação destes fatores citados desencadeia o processo de declínio do ato de amamentar, que por sua vez, determinou uma das maiores mudanças ocorridas nos seres humanos em toda sua história: o desmame precoce.

Segundo Monte e Sá (1999, p. 22) “todas estas razões poderiam ser minimizadas se a eficiência dos programas de saúde infantil fosse maior na promoção do aleitamento e se a rede comunitária de suporte à mãe que amamenta estivesse funcionante”.

É importante firmar que é desejável não desmamar a criança muito precocemente, isto é, antes dos seis meses. Também, na medida do possível, é preciso evitar o desmame repentino, que consiste em retirar repentinamente o peito, dando em seu lugar mamadeiras, pois a criança pode não tolerar bem o desmame precoce e/ou repentino, e como conseqüência aparecerem problemas importantes de saúde pública, que certamente contribuem para a desnutrição infantil no país.

É necessário considerar que imediatamente após o nascimento, o neonato precisa assumir as funções vitais, até então, realizadas pela placenta – incluindo o metabolismo de quantidades suficientes de água, proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas e minerais para um crescimento e desenvolvimento adequados. Considerando que, o recém-nascido apresenta imaturidade funcional, além de um sistema digestório imaturo e uma capacidade gástrica limitada, ajustes fisiológicos cruciais ocorrem em todos os sistemas corporais após o nascimento (KENNER, 2001).

O lactente normal que recebe o leite materno não necessita de alimentações complementares, com exceção do ferro, até os seis meses de idade. A adição de outros alimentos antes de seis meses de idade não é recomendada, embora as mães recebam conselhos conflituosos de outras mulheres (WONG, 1999).

Para Wong (1999) as refeições suplementares não devem ser oferecidas aos neonatos aleitados ao seio antes que a lactação seja bem estabelecida, pois estas refeições podem saciar o neonato e levar à preferência pelo bico de mamadeira. Além disso o processo de sucção da mamadeira é diferente da compressão da mama e do mamilo. Os neonatos aprendem a colocar a língua de encontro aos orifícios do bico para lentificar o fluxo de líquido, logo os recém-nascidos passam a usar esse movimento da língua durante o aleitamento ao seio, e podem empurrar o mamilo humano para fora da boca e/ou não prender a aréola de forma adequada.

No aspecto socioeconômico os problemas decorrentes do desmame precoce apresentam-se muito mais agudos em países pobres. Mota, Roque e Rossi (1990, p. 31) assegura que:

Quando essa mulher de classe menos favorecida imita a “madame”, não leva em conta que esta tem água encanada, que manda lavar e esterilizar a mamadeira e o bico, que não guarda resto de mamadeira, que tem acesso imediato aos melhores profissionais para tratar seu filho quando adoecer, etc, etc. A mãe da favela, que ao desmamar seu filho, tira dele a última oportunidade de receber uma alimentação adequada e higienicamente preparada. Doravante, essa criança será presa a um rosário de diarréias, desnutrição, doenças respiratórias, com perda irremediável e definitiva da capacidade intelectual, perpetuando uma perversa situação social.

Diante do exposto é importante firmar que o leite humano, mesmo diante das novas oportunidades de alimentação, continua sendo a melhor alternativa de nutrição para o lactente durante os seis primeiros meses de vida.

Representa inquestionavelmente, o alimento de escolha para a criança. Sua composição é designada para fornecer a energia e nutrientes necessários em quantidades apropriadas. Ele contém fatores que fornecem proteção contra certas infecções bacteriológicas, suas reações alérgicas são mínimas e a superalimentação é freqüentemente evitada quando a criança é amamentada no peito. Além disso, a proximidade da mãe e do bebê durante a alimentação facilita a aproximação e ligação (KRAUSE E MAHAN, 1991).

A amamentação se apresenta como uma estratégia de diminuir os custos das famílias, dos estabelecimentos de saúde e da sociedade em geral, ao eliminar gastos com leites artificiais e mamadeiras, e ao reduzir os episódios de doenças nas crianças (VINHA, 1999).

É pertinente considerar que existe uma associação entre o tempo de desmame e a mortalidade infantil, isto é, para uma mesma classe social, quanto mais precoce for o período de desmame maior será esta mortalidade. Nos países onde o desmame se inicia precocemente, o coeficiente de mortalidade infantil usualmente se apresenta bem mais elevado no primeiro ano de vida. Em outras áreas onde o desmame é prolongado, o aumento do coeficiente de mortalidade na infância tende a ser “transferido” para grupos etários mais avançados (MARLET, MEIRA & D’ANDRETTA JÚNIOR, 1978).



 EDUCAÇÃO EM SAÚDE E ACONSELHAMENTO EM ALEITAMENTO MATERNO

O processo de construção do Sistema Único de Saúde, regulamentado pela Constituição de 1988, ao ser desenvolvido sobre os pilares da universalização, da descentralização e da integralidade da assistência, visa reduzir o hiato ainda existente entre os direitos sociais garantidos em lei e a capacidade efetiva de oferta dos serviços públicos de saúde à população brasileira.

Neste contexto, o Ministério da Saúde assumiu, desde 1991, a implantação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde – PACS, como transitório a formatação em 1994 do Programa de Saúde da Família – PSF, visando, enquanto estratégia setorial,a reorientação do modelo assistencial brasileiro (SOUSA, 2000).

Nesta perspectiva, o PSF foge da concepção usual dos programas tradicionais concebidos no Ministério da Saúde, por não se tratar de intervenção pontual no tempo e no espaço e tampouco de forma vertical ou paralela às atividades rotineiras dos serviços de saúde. Ao contrário, objetiva a integração e a organização das atividades em um território definido, com o propósito de enfrentar e resolver os problemas identificados, com vistas a mudanças radicais no sistema, de forma articulada e perene.

Vale (2000, p.5), enfatiza que “o PSF vem orientando o modelo assistencial, focalizando suas ações na família, no seu espaço físico e social, proporcionando à equipe de saúde uma compreensão ampliada do processo saúde – doença, o que permite intervenções além das práticas curativas”.

Neste contexto, a enfermagem, categoria profissional que sempre buscou a interface entre a comunidade e serviços de saúde, incorporou as estratégias do PSF, contribuindo de forma significativa nesta nova proposta de atenção à saúde (VALE, 2000).

Analisando a atuação da enfermagem, Sousa (2000, p. 27) ressalta que:

Este vínculo proporciona a enfermagem retornar a visão sistêmica e integral do indivíduo em seu contexto familiar e social, desenvolvendo ações de promoção, de proteção específica, de diagnóstico precoce, de rápida limitação do dano de recuperação da saúde e de reabilitação. Trabalhando com as reais necessidades locais, por meio de uma prática apropriada, humanizada e tecnicamente competente (...)


O enfermeiro é um profissional, obrigatoriamente, integrante da equipe de trabalho do PSF, tem explicitado atribuições em campos essenciais: na unidade de saúde e na comunidade, prestando, permanentemente, cuidados e promovendo aspectos de educação. Isto exige que esse profissional, disponha de um repertório que lhe permita assumir múltiplos papéis: de educação, prestador de cuidados, consultor, uma vez que está sujeito a constantes solicitações e transformações da sua prática.

A enfermagem tida como uma profissão que visa a promoção, manutenção e restauração da saúde trabalha com atividades de educação para saúde e do ensino do paciente. De acordo com Smeltezer e Bare (2002, p. 39),

Todo contato que a enfermeira tem com o usuário os serviços de saúde, estando a pessoa doente ou não, deveria ser considerado uma oportunidade de ensino de saúde. Apesar de a pessoa ter o direito de decidir se aprende ou não, a enfermeira tem a responsabilidade de apresentar a informação que irá motivar a pessoa quanto à necessidade de aprender.


A educação em saúde é apontada como uma forma de troca de experiências e saberes relacionados a aprendizagem contribuindo para que as pessoas possam viver de maneira mais saudável. Conforme Smeltezer e Bare (2002, p. 39) “a educação para saúde é importante para o cuidado de enfermagem, uma vez que ela pode determinar como os indivíduos e as famílias são capazes de ter comportamentos que conduzam a um ótimo autocuidado”.

Atualmente, com as transformações ocorridas no modo de prestação da assistência em saúde, enveredamos para um modelo de trabalho vinculado à promoção da saúde, tendo como base a educação em saúde, bem como a assistência contínua à comunidade.

A promoção da saúde é definida por Smeltezer e Bare (2002, p. 44) como “atividades que ajudam a pessoa a desenvolver os recursos que irão manter ou aumentar seu bem-estar e melhorar sua qualidade de vida”.

De acordo com Krause e Mahan (1991, p. 262)

Enfatizar positivamente as vantagens do aleitamento é importante desde o início da gestação. As mulheres devem ser encorajadas a expressar suas opiniões e sentimentos, de forma que eles possam ser discutidos e alguma informação incorreta possa ser retificada.


O Ministério da Saúde, Brasil (2001) comenta acerca do repasse de informações em situações de estímulo ao aleitamento materno na atuação da enfermagem, afirmando que:

(...) a transmissão de informações do profissional de saúde para a pessoa que cuida da criança (mãe ou outro familiar) não acontece de modo uniforme e nem é fácil. O uso de informação, por sua vez, não acontece automaticamente: a pessoa que as recebe precisa atribuir-lhes um significado a fim de efetivamente incorporá-las e, assim, mudar seu comportamento. Desse modo, as ações de promoção à saúde tornam-se importante ferramenta de trabalho para o enfermeiro.


No momento do aconselhamento é importante que o profissional de saúde, antes de discutir com a mãe como ela amamenta, pense nela como pessoa, nas usas dificuldades e problemas além de sentir-se responsável pelos casos de desmame precoce de lactentes cuja mãe está sob seu aconselhamento buscando a razão de cada caso de insucesso, já que muitos problemas são pouco significativos e as mães somente precisam de apoio ou conselhos simples (KING, 1994).

A informação a ser repassada deve ser relevante para a situação que a mãe e a criança estão vivendo naquele momento, sendo clara o suficiente para que a mãe compreenda e possa fazer a sua decisão em relação à adoção de uma nova prática. A utilização de orientações demasiadamente codificadas pode tornar difícil a captação pelas mães. Quando assistidas por um profissional de linguagem para elas desconhecida, e muitas vezes apressado, as mães se sentem menosprezadas, têm dificuldades em expressar suas dúvidas e freqüentemente se comportam como se tivessem entendido tudo. O profissional muitas vezes não descobre que o atendimento foi ineficiente até que a mãe volte a próxima vez sem ter conseguido praticar aquela orientação que lhe foi repassada. Porém, o mais crítico, é que a criança deixou de ser beneficiada durante aquele período (MONTE & SÁ, 1998).

Em nossa sociedade, muitas vezes, a mãe não amamenta porque nunca recebeu informação correta, ajuda e apoio para desenvolver a prática da amamentação. Daí a real importância do trabalho de aconselhamento à prática do aleitamento materno seja inserido no acompanhamento contínuo da mulher através da orientação por parte dos profissionais de saúde (CARVALHO & TAMEZ, 2002).

Observa-se que a maneira mais eficaz de estímulo ao aleitamento materno tem se mostrado um grande desafio, tanto para a mãe quanto para o profissional de saúde, pois estes sofrem influência significante do modismo que artificializa costumes naturais e instintivos, como a amamentação, e invade indistintamente todo o ambiente social.

Urge desta forma, com base na problemática da amamentação, a necessidade de analisarmos as atividades educativas desenvolvidas pelo enfermeiro, nos Programas de Saúde da Família (PSF’s) que estimulam a prática do aleitamento materno, identificando as dificuldades que os enfermeiros vivenciam durante esta prática, assim como, verificando de que forma os enfermeiros reagem frente às dificuldades encontradas.

Visto que, mesmo diante da supremacia do leite materno, percebe-se um conjunto de idéias estigmatizadoras quanto às vantagens do aleitamento natural, tais como, o leite é fraco e/ou insuficiente, as mamas cairão, que repercutem no desmame precoce.

Para tanto, o presente estudo constituiu-se de uma pesquisa descritiva com abordagem qualitativa, onde se procurou observar, registrar, analisar e correlacionar fatos e fenômenos envolvidos no processo de educação em saúde para promoção da amamentação realizada pelos enfermeiros, bem como interpretar as particularidades dos comportamentos e das atitudes que influenciam a prática da amamentação (MINAYO, 2002).

O estudo foi desenvolvido em Unidades do Programa de Saúde da Família – PSF’s do município de Crato/CE, cidade localizada ao sul do Ceará, na região do Cariri, situada a 560 Km da capital – Fortaleza/CE. Este município apresenta 22 equipes de PSF, distribuídas na zona urbana – 10 equipes, e na zona rural – 12 equipes. O estudo deu-se apenas em equipes localizadas na zona urbana devido a dificuldade de deslocamento para a zona rural. Dentre as 10 equipes localizadas na zona urbana o trabalho foi realizado em 6 equipes, que aceitaram participar da pesquisa.

Ressaltamos que a seleção destas unidades leva em consideração os seguintes aspectos: aceitação voluntária dos enfermeiros e das usuárias do serviço em participar dessa pesquisa; facilidade de acesso da pesquisadora às unidades, bem como estes estarem envolvidos em atividades de educação em saúde para a promoção da amamentação.

Os dados foram coletados no período de junho de 2005 a junho de 2006.

Utilizamos como técnica a observação do tipo participante e a entrevista semi-estruturada com os profissionais no intuito de obtermos fontes seguras das informações desejadas de forma espontânea e observando as impressões do entrevistado, tendo como questões norteadoras: De que forma são realizadas as atividades educativas em aleitamento materno? Que dificuldades os enfermeiros vivenciam durante esta prática? (LEOPARDI, 2002).

A análise dos dados foi realizada agrupando as falas dos profissionais em categorias de acordo com as informações dos sujeitos da pesquisa. As falas destacadas no texto são identificadas de S1 a S6.

Referente aos aspectos éticos para a realização da pesquisa foram consideradas as determinações contidas na Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde, que dispõe sobre pesquisa envolvendo seres humanos (BRASIL, 1996).




 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Após a leitura dos roteiros de entrevista e análise do roteiro de observação participante procedeu-se a categorização das falas, sendo elas: atividades educativas desenvolvidas pelos profissionais, material educativo utilizado pelos profissionais nas orientações sobre aleitamento materno, reação dos profissionais frente às dificuldades das mães em amamentar, descritas a seguir:


- Atividades educativas desenvolvidas pelos profissionais

Atualmente, com as transformações ocorridas no modo de prestação da assistência em saúde, enveredamos para um modelo de trabalho vinculado à promoção da saúde, tendo como base a educação em saúde, bem como a assistência contínua à comunidade (ALMEIDA & NOVAK, 1995).

A promoção da saúde insere-se no contexto atual das políticas de saúde como uma forma de reduzir mortes e doenças desnecessárias, bem como reduzir gastos. O ensino da saúde e a promoção da saúde estão ligados pela mesma meta comum – encorajar as pessoas a alcançar o maior nível possível de bem-estar de tal forma que elas possam viver uma vida saudável prevenindo doenças evitáveis (SMELTEZER & BARE, 2002).

Apresenta-se abaixo alguns depoimentos dos sujeitos, enfermeiros do PSF, sobre atividades educativas em aleitamento materno:

As orientações às clientes são muito importantes [...] faço o possível para esclarecer tudo na consulta de pré-natal. (S1)

Eu falo da importância do aleitamento materno sempre que há oportunidade [...] a gente faz as orientações no pré-natal, e também, na visita domiciliar, depois que o bebê nasce. (S2).


Diante dessas afirmativas percebemos que os enfermeiros, sujeitos do estudo, quando questionados sobre a realização ou não de atividades educativas em aleitamento materno relatam, de forma unânime, desenvolver tais atividades, ressaltando que os momentos mais oportunos para essas orientações são as consultas de pré-natal, bem como as visitas domiciliares no puerpério.

Esta análise torna claro que os enfermeiros pesquisados têm conhecimento do seu papel quanto educador.

É importante firmar que a orientação e assistência devem iniciar precocemente durante o período pré-natal. A cada consulta de pré-natal deve-se comentar aspectos relacionados ao aleitamento sempre que se examinam seios e mamilos, já que a repetição é fundamental para o aprendizado. A educação pré-natal também pode ajudar a preparar a paciente para lidar com conselhos errados sobre amamentação (MOTA, ROQUE & ROSSI, 1990).

Através da observação participante da consulta de pré-natal verificamos que os enfermeiros propiciam a comunicação com as gestantes, questionando-as acerca de experiências anteriores com amamentação, observam a protratilidade dos mamilos, retiram dúvidas e explicitam as vantagens do aleitamento materno para o bebê. Contudo, utilizam-se de uma linguagem um pouco codificada, fato este que dificulta a compreensão das gestantes. Nenhum dos profissionais utilizou-se de recursos materiais para a orientação, nem tão pouco desmistificou tabus relacionados à prática do aleitamento materno ou explicou as vantagens da amamentação para a futura mãe. Fato este que compromete o trabalho educativo.

Outro ponto observado foi que durante todo este momento de coleta de dados nenhum dos sujeitos realizou visita domiciliar no puerpério, embora a qualificassem como importante, logo não utilizamos o roteiro de observação participante no puerpério.

Contudo, torna-se importante firmar que no puerpério, momento em que se instala a lactação, também é importante mostrar para a mãe que os recém-nascidos têm comportamentos diferentes e nem todos agem da mesma maneira. É que é aos poucos que a amamentação se estabelece harmoniosamente (MOTA, 1990).

Por conseguinte, acreditamos que esse aspecto deva ser ressaltado e levado em consideração por ser o puerpério um período caracterizado por insegurança, conflitos e ansiedade, o que pode repercutir de forma negativa no estabelecimento da amamentação.



- Material educativo utilizado pelos profissionais nas orientações sobre aleitamento materno

No momento do aconselhamento é preciso falar com as mães na medida do seu entendimento, utilizando a linguagem para repassar orientações diretas. Para orientar é necessário primeiro ouvir para aprender com as mães sobre suas crenças, percepções, sua realidade de vida, suas expectativas sobre seu bebê, suas aflições, uma vez que a forma de repasse das informações pelo profissional repercute na qualidade de vida da população. Para que esse momento torne-se mais produtivo faz-se importante o uso de recursos educativos (MONTE & SÁ, 1998).

Para o repasse de orientações em saúde, numerosas técnicas estão disponíveis, incluindo palestras, ensino em grupos e demonstrações, todas elas podendo ser realçadas com materiais de ensino especialmente preparados. Reforço e acompanhamento são importantes porque a aprendizagem exige tempo. Permitir um amplo período de tempo pra aprender e reforçar o que se aprendeu é uma estratégia de ensino importante (SMELTEZER & BARE, 2002).

Podemos visualizar a problemática desta categoria:

Sei que é importante a formação do grupo de gestantes [...] temos poucas salas e não tenho onde organizar as gestantes.(S3)

A gente faz o possível [...] a Secretaria de Saúde tem apenas um álbum seriado pra várias equipes [...] a gente fica sem ter o que usar.(S5)


Nesta análise identificamos que 04 dos sujeitos pesquisados relataram não desenvolver grupos com as gestantes por não disporem de área física na unidade básica de saúde que viabilize tal atividade, relataram também que não utilizam recursos materiais e/ou audiovisuais nas atividades educativas, em virtude das unidades de Programa de Saúde da Família – PSF’s não possuírem estes materiais. Estes profissionais realizam as orientações exclusivamente através de um breve diálogo com as mães.

Neste mesmo contexto, os outros dois profissionais relatam desenvolver as atividades educativas em aleitamento materno através da formação de grupo de gestantes e utilizarem fitas de vídeo e álbum seriado nestas atividades favorecendo o entendimento das mulheres.

Diante desta análise, verificamos que a compreensão das mulheres que receberam orientações apenas por explicações e/ou diálogos se torna reduzida, uma vez que não são utilizados métodos alternativos de comunicação.

Logo, faz-se necessário que estes profissionais utilizem meios criativos de comunicação que superem a falta de material e/ou espaço físico fornecido pelo Sistema Público de Saúde. Fazendo assim, com que a qualidade de seu trabalho não fique comprometida.

A participação do enfermeiro no processo de amamentação é de apoio e de orientação. E com o desenvolvimento deste trabalho contínuo à mulher, seja no pré-natal ou no puerpério, o enfermeiro do Programa de Saúde da Família - PSF, poderá torná-la mais confiante e consciente da importância da amamentação. Fazendo desta forma com que sejam minimizados problemas existentes e/ou evitados problemas futuros que possam surgir ao longo do processo ensino-aprendizagem, uma vez que a qualidade deste acompanhamento é capaz de propiciar o estabelecimento da amamentação (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001).


- Reação dos profissionais frente às dificuldades das mães em amamentar

Levando em consideração que na prática da amamentação as mães podem se deparar com problemas que dificultam este processo, questionamos os sujeitos do estudo acerca de suas reações e/ou atitudes frente estas dificuldades.

Podemos ilustrar isto nas falas abaixo:


A gente tenta dizer pra mãe o que ele deve fazer [...] passa informação, orienta [...] (S6)

[...] geralmente este tipo de assunto fica reservado para o médico [...] a gente encaminha pra ele. (S4)


Os sujeitos do estudo relataram, por unanimidade, que quando as mães chegam ao consultório de enfermagem da Unidade de Programa de Saúde da Família, apresentando problemas estes profissionais fornecem informações e orientações a fim de minimizar estes transtornos. E também relataram, com a mesma unanimidade que sempre repassam estes problemas para o profissional médico da Unidade de Programa de Saúde da Família, para que ele aponte a resolutividade final para o problema.

Vale salientar que a Enfermagem é uma profissão independente e alicerçada no conhecimento científico, o que torna o enfermeiro um profissional apto a adquirir aperfeiçoamento de forma constante e aplicá-lo na sua prática diária (MOTA, ROQUE & ROSSI, 1990).

Durante todo o processo é mister considerar que no momento do aconselhamento não deve ser dito à mãe o que ela deve fazer, uma vez que aconselhar não é dar conselhos. Aconselhar se pauta numa relação de confiança. É uma relação interpessoal, face a face, orientada por apoio de ordem emocional e transmissão de conteúdos informativos que se traduz conforme as vivências e a singularidade pessoal (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1999).

Antes de discutir com a mãe como ela amamenta é necessário pensar nela como pessoa, nas suas dificuldades e problemas, pois o sucesso da amamentação depende do seu bem estar, de como ela se sente a respeito de si própria e de sua situação de vida. É preciso entender as mães.

Para uma mãe que recebe uma recomendação, praticá-la significa fazer algo novo ou, na melhor das hipóteses, aperfeiçoar algo que já fazia antes.



 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A educação em saúde tem como meta ensinar as pessoas a viverem de forma mais saudável possível. O chamado para a promoção da saúde através das práticas educativas tornou-se a pedra fundamental na política de saúde, tendo em vista a necessidade de controlar os gastos e reduzir doenças e mortes desnecessárias (SMELTEZER & BARE, 2002).

Diante da análise dos resultados presentes, observa-se que os enfermeiros pesquisados consideram as atividades de educação em saúde ferramentas essenciais na dinâmica do Programa de Saúde da Família, contudo entraves como pouco material educativo e espaço físico comprometem o desenvolvimento de grupos de discussão e outras atividades.

Neste contexto de educação para promoção da saúde, é mister considerar que é de competência dos profissionais de saúde a estimulação à prática do aleitamento materno fornecendo informações e apoio às mães (WONG, 1999).

Constatamos que alguns enfermeiros não têm conhecimento científico suficiente ou autonomia para solucionarem problemas relacionados à amamentação, delegando ao médico todas essas atividades.

Assim, espera-se que a análise realizada possa despertar nos enfermeiros a importância do seu papel no repasse de orientações relacionadas à prática do aleitamento materno, contribua para que estes profissionais repensem na forma como estas orientações são repassadas, inclusive utilizando a criatividade para contornar deficiências de material educativo no Sistema Único de Saúde, bem como se capacitem para exercerem sua atividades de forma mais autônoma com base no conhecimento científico, a fim de fortalecerem a qualidade da assistência prestada pela enfermagem no Programa de Saúde da Família.





 REFERÊNCIAS


ALMEIDA, J. A. G. de; NOVAK, F. R. O leite humano: qualidade e controle. In: Congresso Brasileiro de Mastologia. Anais: Natal, 1995.
BASSOUL, E.; BRUNO, P.; KRITZ, S. Nutrição e dietética. 2. ed. rev.atual. Rio de Janeiro: SENAC Nacional, 1998.
BRASIL, Conselho Nacional de Saúde. Resolução Nº 1996/96. Decreto Nº 93.933 de Janeiro de 1987. Estabelece critérios sobre pesquisa envolvendo seres humanos. Bioética, v.4, n.2. Suplementos, 1996.
CARVALHO, M. R. de; TAMEZ, R. N. Amamentação: bases científicas para a prática profissional. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2002.
FONTES, J. A. S. Assistência materno-infantil: privilégio de poucos, direito de todos. Rio de Janeiro: Cultura Médica, 1984.
KENNER, C. Enfermagem neonatal. 7 ed. Rio de Janeiro: Reichmann & Afonso editores, 2001.
KING, F. S. Como ajudar as mães a amamentar. 2 ed. Brasília, ministério da saúde, 1994.
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Sobre os autores:

1. Patrícia Pereira Tavares de Alcântara é Enfermeira do Programa de Saúde da Família e aluna do Curso de Especialização em Saúde da Família da Universidade Regional do Cariri. (patyperigo@bol.com.br);

2. Maria do Socorro Vieira Lopes é Enfermeira e Professora Assistente da Universidade Regional do Cariri. É mestre em Enfermagem Comunitária pela Universidade Federal do Caerá (UFC) e Doutoranda em Enfermagem na Promoção da saúde pela UFC. (socorrovieira@hotmail.com)

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